domingo, 18 de maio de 2008

Altares Domésticos....

Salud!

Desde nossos mais remotos Ancestrais, há a noção da importância não só física, como também mágico-psíquica do Fogo....seja a Fogueira, a Lareira, o Altar, o Fogão....ao redor do Fogo, Vida e Morte falaram de suas múltiplas facetas.......ao redor do Fogo, as Artes de preparar alimentos, remédios, artes e artesanatos, metalurgia e escultura se desenvolveram.....assim como também as Artes de criar cantos e contos que alimentam e curam a mente e o espírito.....

Com o passar dos séculos, o Fogo Doméstico, eixo axial do Clã, foi cada vez mais envolto em simbolismos e conceitos que remetem ao Sagrado. Tornou-se, entre os Ibéricos antigos, o Altar dos Ancestrais: o ponto focal simbólico da Espiritualidade Tradicional de nossos Ancestrais, e local onde a Tradição era repassada às novas gerações...



As Tradições de Bruxaria Ibérica guardam em sua essência a espiritualidade Pagã de outras épocas....seja de forma clara e óbvia, seja de forma cifrada e/ou inconsciente. Em sua grande maioria, as linhagens de Bruxaria Ibérica são advindas dos Cultos Domésticos praticados pelos Pagãos na Antiguidade e início da Idade Média. Seu Templo Sagrado, era e é a Casa.



As famílias que mantiveram a Tradição no correr dos séculos ( e indivíduos solitários, pois a tradição ibérica também foi - e muitas vezes ainda é - mantida solitariamente, por uma infinidade de motivos, geralmente originários das violentas e criminosas perseguições religiosas ocorridas no passado ) sempre encararam a casa muito mais do que uma manifestação arquitetônica. Eles vêem na casa um solo sagrado, onde Vida e Morte transitam, onde ocorre a partida dos entes queridos, que vão morar no Castro dos Idos ( a Aldeia dos Ancestrais )...... e também onde ocorre o nascimento de outros queridos, que segundo nossas crenças, são Ancestrais que viveram há muito tempo, retornando aos ventres de nossa linhagem, para continuar seu aprendizado e vivência entre nós, fortalecendo os laços que nos unem, em nome de Band e Bandonga, Deuses dos laços sagrados de honra e de sangue...Num universo como esse, não poderiam faltar, claro, os altares.....os locais consagrados ao culto e veneração aos Deuses e Ancestrais do Clã...

Cada família, é de se esperar, tem suas características muito próprias, no que diz respeito a que Forças serão veneradas e invocadas nos Altares Domésticos. Com a romanização, na Antiguidade, o culto aos Ancestrais da Casa, já existente entre os ibéricos, ganhou determinados aspectos do Culto aos Lares, que romanos e ibero-romanos mantinham em suas casas. Tais altares eram chamados de Lararium. Mas também, por outro lado, há famílias que não aceitaram a romanização tão facilmente, e permaneceram mantendo os traços originais de suas crenças e práticas. O mesmo ocorreu com a chegada do cristianismo.........e com a necessidade de se camuflar cultos e práticas de devoção pagãs, vários dos simbolismos, imagens e mitos do catolicismo foram adotados por muitos dos antepassados. Com isso, tradições sincréticas surgiram ( o mesmo fenômeno ocorrido com os africanos e afro-descendentes no Brasil, na época em que eram escravizados, no que diz respeito aos seus cultos voltados aos Orixás, e ao sincretismo com elementos iconográficos católicos ). Por conta disso, a veneração a determinados santos da igreja foi incorporada por Bruxas e Bruxos portugueses e espanhóis. Através do culto a esses santos, se manteve, muitas vezes, o culto aos Deuses Antigos, no que os antepassados viam em tais ícones uma forma de se representar aquelas mesmas Forças Ancestrais adoradas no passado, e cujo verdadeiro nome só era conhecido e pronunciado entre os iniciados da Família. Hoje em dia, muitas vezes encontramos pagãos e Bruxos que torcem o nariz para tal culto sincrético....e sempre venho a lembrá-los que é esta a cultura de magia que muitas vezes herdamos daqueles que trilharam o Caminho antes de nós....e que graças a eles e a seus cultos sincréticos, estamos hoje aqui VIVOS e confortavelmente sentados diante do monitor, mergulhando em nossas pesquisas sobre nossa Ancestralidade Pagã.......

E se no altar de casa, eu aqui no início do século XXI, lembro de representar os Deuses venerados pelos Ancestrais dos tempos em que o Paganismo era a cultura religiosa comum, acho que não há nada mais coerente com os princípios da honra ao sangue, do que me lembrar TAMBÉM dos Antepassados que fizeram suas releituras da Tradição, com o intuito de se preservá-la, para as gerações futuras.....assim como também me lembrar daqueles antepassados que simplesmente aprenderam que o santo protetor da família era São Miguel Arcanjo....e a Ele rendiam devotio ( devoção ), sem nem suspeitarem que tal personagem foi visto, pelos seus bisavós, como uma camuflagem para Endovélico, Deus protetor da raça lusitana e ibérica..........Pessoalmente, procuro manter em minhas devoções pessoais, espaços para essas e outras tantas concepções do Sagrado......e por isso, quem conviver comigo, verá que há lugar em minha jornada diária para uma oferenda de incensos e vela para Endovélico no altar dos Deuses.....uma vela e incensos acesos ao som de fados ou música flamenca ou árabe aos Ancestrais....assim como também há espaço para se invocar São Miguel Arcanjo, no dia a dia, quando benzo alguém contra o mau-olhado: “Valei-me a Luz da Espada de Fogo de São Miguel Arcanjo, que é a Luz da Honestidade de meu Trabalho, que queima, fura, corta, rasga e despedaça a língua, os olhos, o coração, o corpo, a mente, a alma e a má vontade de quem me quer mal, Assim Seja, Amém!”Eu sou fruto das inúmeras alquimias sanguíneas e culturais que me antecederam em meu Clã.....<;)

Falarei aqui sobre o Altar de minha Casa, local onde trabalho com o Culto Doméstico.

Meu altar hoje é menor do que antigamente, senti necessidade, com o tempo, de simplificar algumas coisas....mas não me mantenho rígido quanto a isso, e sempre estou aberto a mudanças no que diz respeito à organização do altar....seja partindo de idéias minhas, seja daquilo que é pedido pelos Ancestrais.....Estou com planos de construir um altar específico para os Ancestrais, já que hoje em dia eu os venero e cultuo no Altar dos Deuses.

Costumo representar a linhagem Ancestral das Bruxas que me antecederam com uma imagem de gesso de uma Bruxa Anciã, que estava presente no altar que montei em meu primeiro ritual de Bruxaria ( na verdade, o primeiro que fiz, agora consciente que o nome daquilo que eu vivia e praticava religiosamente se chamava “Bruxaria” ), em 31 de Outubro de 1994. Ela estava presente em minhas iniciações, e a tenho como representação daqueles que me guiam e protegem em meu caminhar no Caminho.... Nesse mesmo altar tem na parede um ícone de Arádia, com um véu azul na cabeça ( pelo visto, minha ancestralidade ibérica andou tirando umas férias na península vizinha.... <:p ).

Ladeando esse ícone, há ícones de Atégina e Endovélico, os Ancestrais do povo Lusitano. Tem também imagens de Morrigú ( O Corvo, ave símbolo Dessa Deusa celta e celtibérica, é como meus Ancestrais também chamavam a Mãe ), de Trebaruna ( Deusa Guerreira lusitana, cujo nome significa “Segredo da Casa” ). A propósito, essas imagens fui eu mesmo que desenhei e pintei........Acima, há uma representação de Ártemis Pótnia Theron ( Senhora dos Animais ), Deusa grega, venerada em quase todo o mediterrâneo, minha Mãe Divina adorada...Também há uma imagem do Chifrudo Robin Goodfellow, que é uma das representações do Deus das Bruxas que mais me toca fundo n’alma. Sobre o altar, há uma concha, que simboliza a Deusa, o Mar, Ventre primordial de toda a Vida; do outro lado, um chifre de carneiro, símbolo do Deus dos Animais, Senhor que morre pelo bem da tribo, e que sempre renasce........Há também um sino, daqueles que se pendura no pescoço das cabras ( lembrança do tempo em que meus antepassados marroquinos pastoreavam cabras, sendo este um som muito comum em seu dia-a-dia, na luta pela sobrevivência da tribo ), que toco quando termino de acender as velas e incensos, para sinalizar a dedicação das oferendas aos Deuses e Ancestrais.............Tem ali também um incensário, castiçais para velas, um recipiente de metal, para se socar ervas ( com um pilão ), que uso para colocar sal grosso.............

Minha Varinha Mágica está na beira do altar.........com ela eu direciono energias, encanto filtros mágicos, poções, feitiços.......Há também um cristal aos pés de uma imagem de Ártemis de Éfesos; um incensário em formato de corujinha, que uma amiga me trouxe da Argentina; um guizo japonês ( sim, meus rituais são globalizados e barulhentos....um LUXO....kkkkk ); um pentagrama que uso no pescoço; um Athame ( punhal ), com o formato de Triluna, que é um xodó meu.............também costumo guardar ali a Chave da Casa, símbolo do Culto Doméstico Ladeando a foto da imagem de Ártemis de Éfesos, há duas representações de animais: um boi que ganhei de meu avô quando tinha uns 5 anos............e uma pantera negra, um dos brinquedos preferidos de meu irmão, que muito cedo foi morar no Castro dos Idos............o equilíbrio entre os opostos, a Sabedoria dos velhos passos, a Força dos novos............ <;)

Do lado do altar, a Estaca, cajado bifurcado que representa o Chifrudo, na Bruxaria Tradicional. Em todo ritual, acendo uma vela na forquilha da Estaca, que também é enfeitada com as flores, folhas e frutos de cada estação, nos ritos sazonais.....Acima do altar, na parede, uma trompa de chifre de búfalo que eu fiz ( ainda não está pronta ), para soprar no ápice de cada rito; também tem uma maraca indígena que uma Bruxa maravilhosa chamada Anita La Fey me trouxe de Manaus ( besos mi querida! ); e além desses, tem o cajado dos Ancestrais e duas vassouras que utilizo em ritos específicos.

Com o tempo, percebi que a Sacralidade do Lar se manifesta em mais de um local da Casa: percebi o sagrado manifesto em cada cantinho donde eu moro!

A Alfaiataria de meu pai fica na frente de casa, porta pra rua, é o nosso comércio....onde ganhamos o Pão Sagrado de cada dia, com as Bênçãos e Graças dos Deuses e Ancestrais de nosso Clã...

Acima do relógio de Luz, estão imagens dos Santos venerados pelos meus pais e avós, mesclados com Deuses de nossos Ancestrais Pagãos, e até mesmo um Elefante de gesso ( presente de nossa querida hermana chilena Dona Isaura, fiel amiga de nossa família, que nunca nos deixa de fora das novidades da Avon! ), que está lá, conduzindo a Prosperidade para dentro de nosso Lar.

Quando meu pai subiu a Colina para a Aldeia D'Além D'Aló, mi madre colocou uma foto dele, num suporte, bem na cabeceira do balcão principal, onde grande parte do trabalho é feito: um novo Lararium, que inclusive conta com a presença do Fogo Sagrado, todo santo dia ardendo no Ferro de passar roupas, instrumento fundamental para o nosso sustento....Bendito Fogo Ancestral, ao redor do qual depositamos alimentos, poções medicinais, criações de nossas artes e artesanatos, canções, contos, esperanças e sonhos.....

Besos a todos!

Por: Raven Luques McMorrigú.

2 comentários:

Luciana Onofre disse...

Querido estou em busca de uma imagem de Proserpina, se souberes onde há, me avisa.

Besos,

Luciana

padilhaquintanilha disse...

Gostei muito do blog. Me interessei muito pelos desenhos, principalmente pelo desenho de Atégina com vários corvos, um bode e um caldeirão. Esse desenho é antigo ou foi tu que desenhaste??
Onde posso encontrar uma figura antiga de Atégina na internet???