sexta-feira, 30 de maio de 2008

Diana, Janas e Janaínas....


Buenas!
Este texto que vou postar agora fala sobre a origem verdadeira do nome Janaína, tão comum aqui no Brasil. Muitos já disseram sobre possíveis origens indígenas ou africanas....mas aqui é mencionada a origem lusitana de tal nome, inclusive advinda dos mitos e lendas dos antigos lusitanos, asturianos e galegos...uma origem que resgata ancestrais conexões com Diana, a Deusa itálica da Lua e da Magia, Senhora das Bruxas, que sempre foi muito adorada na península Ibérica.

A OUTRA ORIGEM DE JANAÍNA –

Por Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

De onde vem o belo nome "Janaína" que, graças a Leila Diniz e sua famosa gravidez, tornou-se tão comum em meninas brasileiras desde os anos 70? Claro que é um dos nomes dados no Brasil a Iemanjá. E que essa orixá, assim como o seu nome mais tradicional, é certamente de origem ioruba: o nome Yemoja é uma contração de Yeye mo oja, "mãe dos peixes". Mas "Janaína" não se explica com a mesma facilidade. O dicionário Houaiss registra a valente tentativa da museóloga e folclorista Olga Cacciatore, de explicar esse nome como composição ioruba: iya "mãe" + naa "que" + iyin "honra", mas isso está longe de ser ponto pacífico. A muitos ouvidos, o nome soa indígena, talvez tupi - nos gibis de Maurício de Souza, por exemplo, é nome de uma indiazinha. Mas isso faz ainda menos sentido. Por surpreendente que pareça, a origem do nome pode ser mesmo portuguesa, nada mais, nada menos - uma modificação ou diminutivo do português "jana", que dá nome, por exemplo, a Ribeira de Janas, que é um distrito de Lisboa e a Janas, vilarejo próximo de Sintra, na Estremadura.

Mas o que é uma jana? Ora, em Portugal e na região espanhola de León, janas são uma espécie de fadas dos rios, semelhantes a sereias, que como suas similares e variantes em muitas outras tradições, tanto podem cativar os homens pela sua beleza e lhes causar a perdição como se deixar seduzir e terem um triste fim. No passado, a palavra também foi usada como sinônimo de bruxa e de fada. No noroeste da Espanha, nas Astúrias e na Galiza (onde o "x" geralmente corresponde ao "j" português), são chamadas xanas. São descritas como belas mulheres loiras e de olhos azuis, que vivem nos rios das montanhas, fontes e grutas e passam a maior parte do tempo a se pentear com pentes de ouro.

São bondosas como os que as ajudam, mas rancorosas e vingativas com os que invadem seus domínios. Os nomes de xácia ou sácia são também conhecidos na Galiza. Segundo uma lenda da Ribeira Sacra, curso d´água perto de Monforte de Lemos, um pescador encontrou uma xácia, bela e formosíssima e esta lhe disse que, se a batizasse, ela se desencantaria e se casaria com ele. O casamento realizou-se, mas a xácia acabou por aborrecer-se, abandonou o marido e voltou às profundidades do rio, onde seus parentes a despedaçaram por ter-se feito cristã. Uma variante do nome - ljanas - é dado no vale de Aras, leste da Cantábria (outra região do norte da Espanha) a um ser um tanto diferente: duendes femininas travessas e glutonas, que andam nuas, têm um peito enorme que jogam sobre o ombro direito e entram nas casas para roubar comida e nos apiários para roubar mel. Uma lenda conta que o cura de San Pantaleón quis acabar com elas ateando fogo às grutas onde viviam e elas se vingaram incendiando o povoado, a começar pela casa do vigário.

Meio confundidas com anjos, as janas viram também anjanas na Cantábria, onde uma variante da lenda assegura que são enviadas por Deus para realizar boas obras e que, depois de 400 anos, vão-se embora para não mais voltar. As anjanas foram celebrizadas pelo escritor espanhol Manuel Llano em Mitos y Leyendas de Cantabria, onde são descritas como tendo a aparência de mulheres jovens e belas, de pequena estatura, olhar amoroso e voz doce. Vestem uma túnica branca com uma capa azul, costumam usar coroas de flores e carregam uma varinha mágica que brilha com uma cor diferente a cada dia da semana, indicando as diferentes magias que podem realizar nesses dias. Lutam com seus inimigos, os ojáncanos ou ojancos (literalmente, "olhões"), ciclopes peludos que são os bichos-papões da Cantábria. Vivem nos riachos, fontes e mananciais, conversam com as águas e os pássaros, passeiam pelos bosques, ajudam animais feridos e árvores partidas. Às vezes, também ajudam amantes, pessoas perdidas na floresta e sofredores em geral.

A seguinte parlenda da Cantábria serve para pedir proteção às anjanas e encontrar objetos e animais perdidos:

"Anjanuca, anjanuca,
güena y floría,
lucero de alegría,
¿ónde está la mi vacuna? "

Esta outra serve para encontrar o caminho que se perdeu:

"Anjana blanca,
ten piedad de mi.
Guiame por la oscuridad y la niebla.
Líbrame de los peligros y de los malos pensamientos "

Na festa da primavera, se reúnem à meia-noite para dançar nas brenhas e espalhar pétalas de flores que dão sorte a quem as encontrar. Disfarçadas de velhas, as anjanas também testam a caridade do povo e distribuem presentes e castigos segundo seu mérito. Na Sardenha, também se fala de janas - ou ianas, nas grafias sarda e italiana. As labirínticas sepulturas cavadas nas rochas pelos povos pré-historicos que viveram na ilha antes da conquista romana são conhecidas no folclore local como domus de ianas, ou seja, casas de janas.

Ora, o nome "Jana" é uma corruptela de Diana, a deusa romana da caça e das florestas, assimilada às deusas gregas Ártemis, Hécate e Selene. Seu culto nasceu às margens do lago Nemi, perto de Roma. Ali, seu sacerdote permanecia no posto, com o título de Rex Nemorensis, até ser morto pelo próximo pretendente, usualmente um escravo fugido, que viesse a colher um "ramo dourado" no bosque sagrado. Uma tentativa de explicar esse costume é o fio condutor de um dos mais belos e ambiciosos (mas não dos mais rigorosos) tratados de mitologia já escritos, O Ramo de Ouro, de Sir James George Frazer. Nos últimos séculos da antiguidade romana, seu culto popular entre escravos e camponeses pobres em áreas remotas, permaneceu como um dos mais resistentes à erradicação pelo cristianismo. Foi um dos últimos a morrer, se é que chegou a desaparecer de todo. Em História Noturna: decifrando o Sabá, o historiador Carlo Ginzburg refere-se a uma vasta série de confissões de supostas feiticeiras dos séculos X ao XIV e mesmo posteriores que, interrogadas por padres e inquisidores, afirmavam participar em êxtase de vôos noturnos na companhia de uma misteriosa divindade feminina, chamada, conforme a época ou região, de Diana, Fortuna, Richella (de "riqueza"), Abúndia (de "abundância"), Sácia (de "saciar"), Bensozia (Boa Sócia), Perchta (deusa da vegetação na Áustria e sul da Alemanha, protetora das almas dos mortos), ou Huld/Holda/Holle (sua correspondente no norte da Alemanha, protetora das crianças e das tarefas domésticas femininas).

Eram sinais de um resistente culto pré-cristão da fertilidade que ele chama de "religião diânica". Outros possíveis equivalentes, citados por outros autores, são, na Escócia, Nicceven ou Nicheven, de um termo que pode significar "divina" ou "brilhante", no país basco, a senhora Mari ou Andra Mari, a deusa-mãe basca. E na Itália, La Befana (de "Epifania"), uma fada que no folclore italiano traz presentes para as crianças na véspera da festa de Reis, como os reis magos nos países de língua espanhola (ou Papai Noel na parafernália natalina de origem nova-iorquina). A Igreja, pelo menos, interpretava a todas como referências à deusa romana - ou então a Herodíade, a filha de Herodes que os Evangelhos responsabilizam pela decapitação de São João Batista. Como a personagem bíblica se misturou com tal cortejo de divindades pagãs? Talvez a origem tenha sido um sincretismo da grega Hera com a romana Diana - Heradiana, interpretada pelos inquisidores como Herodias. Assim, a sedutora princesa judia teria se tornado filha ou companheira da deusa virgem e lésbica. De qualquer forma, segundo teria ouvido o folclorista estadunidense Charles Leland de uma informante chamada Maddalena, uma seita clandestina de feiticeiras da Toscana adorava sua deusa por uma corruptela desse nome. Aradia ou o Evangelho das Feiticeiras, publicado em 1899, tornou-se um dos textos fundadores da Wicca e do neopaganismo moderno. Voltemos, porém, à Idade Média. Em 1390, um inquisidor milanês mencionou mulheres que haviam confessado a seu predecessor que participava regularmente do "jogo de Diana que chamam Herodíade".

Na verdade, segundo as sentenças originais examinadas por Ginzburg, Sibillia e Pierina chamavam o objeto de seu culto de "Madona Oriente". Toda quinta-feira, saíam com Oriente e sua "sociedade". Oriente as chamava "filhas" e respondia às suas perguntas, predizendo coisas futuras e ocultas. Com base nessas predições, Sibillia respondia às perguntas de muitas pessoas, dando-lhes informações e ensinamentos. Pierina aprendia as utilidades das ervas, remédios para doenças e o modo de encontrar as coisas roubadas e afastar malefícios. Via a Madona Oriente como a senhora de sua "sociedade", assim como Cristo era o senhor do mundo. Sua função era proporcionar mais bens materiais, mais colheitas, mais gado ao povo - que, aliás, venerava Cristo e os santos com o mesmo objetivo. Às vezes, suas seguidoras matavam bois e comiam a carne destes; depois, recolhiam os ossos e os colocavam dentro das peles dos animais mortos. Então Oriente tocava as peles com a ponta de sua varinha e os bois ressuscitavam - embora não conseguissem mais trabalhar. Essa curiosa narrativa lembra o mito de Dioniso, que foi sacrificado na forma de touro pelos Titãs e devorado - exceto pelo coração, salvo por uma deusa (Atena, Réia ou Deméter) e ressuscitado por Zeus. Lembra também nosso auto do bumba-meu-boi e suas variações regionais (boi-bumbá, boi de Janeiro etc.), que também giram em torno da ressurreição de um touro. Poderão histórias como essa representar pontes entre a Grécia arcaica e o Brasil moderno? Na Idade Média, a Igreja freqüentemente classificou como culto de Diana ou Herodíade várias aparentes sobrevivências de cultos e superstições pagãs e chamou as "bruxas" que as praticavam de "dianas". Usou a deusa romana e a princesa judia como fio condutor para orientar-se no labirinto das crença locais.

Camponeses de várias partes da Europa latina deram-lhes ouvidos, identificando com Diana ou "Jana" tradições locais sobre espíritos femininos de diferentes origens, misturando e reinventando crenças e lendas. Mas nomes alternativos sobreviveram em alguns lugares - como Sácia, transformada em Xácia por dialetos locais.


Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.

Este texto foi copiado do seguinte endereço:
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1270956-EI6607,00.html

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Brujería: a Astrologia e os Santos, segundo as Brujas...


Salud!
Adoro tudo o que se refira ao folclore, costumes, tradições e usanças populares do Mundo todo. Conhecer o outro é uma forma de se parar para conscientizar sobre nós mesmos também...
E foi me deliciando com um texto, que leio e releio há 10 anos, que resolvi postá-lo aqui no Blog...o que é bom deve ser compartilhado ;)

A associação dos Santos católicos com os doze signos do Zodíaco surgiu no México do século XVIII, graças à mescla de dos elementos da chamada "Brujería" ( forma de religiosidade popular, que une ritos indígenas e africanos ) com o catolicismo. Chamada de Cadeia Mágica, essa relação entre santos e signos constitui um caminho para o autoconhecimento e a harmonização espiritual.
Para obter as bênçãos do seu santo protetor, tenha em casa uma imagem dele e o homenageie com um ritual no dia de seu aniversário, assim como no dia dele, e sempre que sentir necessidade. Forre uma mesa com uma toalha da cor correspondente ao santo do seu signo. Acenda duas velas da mesma cor e um incenso. No meio do altar, coloque desenho ou um objeto representando o símbolo do santo. Peça a ele para lhe dar paz, amparo espiritual, proteção e harmonia em todos os dias da sua Vida. Reze diante do altar e deixe as velas e o incenso queimarem até o fim.
A seguir, veja qual é o santo que rege o seu signo, o símbolo a ele associado, sua cor e seus atributos:

ÁRIES
Santo: São Sebastião;
Símbolo: Flecha;
Cor: Vermelho;
Atributos: Coragem, vitória e boa sorte.

TOURO
Santo: Santa Maria Madalena;
Símbolo: Vidro de perfume;
Cor: Verde;
Atributos: Proteção no Amor, Magia e sorte nos negócios.

GÊMEOS
Santo: São Cosme e São Damião;
Símbolo: Pequena espada;
Cor: Laranja;
Atributos: Cura, proteção às crianças e reconciliação;

CÂNCER
Santo: Santa Petrônia;
Símbolo: Caranguejo;
Cor: Branco
Atributos: Maternidade e conhecimentos ocultos.

LEÃO
Santo: São Leão;
Símbolo: Coroa;
Cor: Dourado;
Atributos: Fortuna, ajuda e sucesso.

VIRGEM
Santo: Santa Bárbara;
Símbolo: Palma ( a flor );
Cor: Rosa;
Atributos: Perseverança, proteção e segurança.

LIBRA
Santo: Santo Elói;
Símbolo: Escada;
Cor: Verde-malva;
Atributos: Justiça, trabalho e recompensa.

ESCORPIÃO
Santo: Santa Salvada;
Símbolo: Águia;
Cor: Vermelho-escuro;
Atributos: Intuião, Alta Magia e proteção.

SAGITÁRIO
Santo: São Gregório;
Símbolo: Livro;
Cor: Púrpura;
Atributos: Viagens, intelecto e sonhos reveladores.

CAPRICÓRNIO
Santo: Santa Catarina de Siena;
Símbolo: Lírio;
Cor: Preto;
Atributos: Longevidade, boa saúde e amizades duradouras.

AQUÁRIO
Santo: São João Batista;
Símbolo: Barril;
Cor: Marrom;
Atributos: Iluminação, pureza e misticismo.

PEIXES
Santo: Santa Marina;
Símbolo: Peixe;
Cor: Violeta;
Atributos: Dom da adivinhação, espiritualidade e Fé.

Bendiciones delos Santitos a todos!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

As Bruxas Paulistas - Feitiçaria e Inquisição em São Paulo


Buenas!
Estou postando aqui no blog um texto super interessante de Sandra Boccia sobre processos inquisitoriais movidos contra paulistas dos séculos XVII a XIX,inclusive envolvendo acusações de prática de Bruxaria:

AS BRUXAS PAULISTAS
Documentos mostram como a Igreja saiu à caça de feiticeiras em São Paulo no século XVIII

Por Sandra Boccia

O Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo é um tesouro histórico conhecido por poucos. Protegidos do pó em estantes de cedro, 9 000 processos cíveis e criminais permitem rara olhada na intimidade da vida cotidiana em São Paulo, sul de Minas e Paraná entre 1632 e 1856.

Em meio a 10 milhões de registros de batizados, aparece o de Maria Izabel de Alcântara Brasileira, em 24 de maio de 1831. Supõe o historiador Jair Mongelli, chefe do arquivo, que se trata da filha ilegítima de dom Pedro I e Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos. "O nome está grifado", nota.

Há também processos de adultérios, concubinatos, sacrilégios, sodomia, sexo com animais e até mesmo de promessas de casamento não cumpridas. Preso em 1765, um certo Manoel Rodrigues Jordão justificou a dispensa de Joana Machado de Siqueira alegando que a moça não tinha dentes, dinheiro ou formosura. Um fiel da paróquia de Guarulhos, hoje município da Grande São Paulo, foi acusado de ter ouvido missa "vestido de mulher" em 1744. No decorrer do processo, descobriu-se que "o menor" Joaquim José não tivera a intenção de se passar por travesti. Tão pobre que não tinha o que vestir, ele improvisou com roupas de suas irmãs. Acabou absolvido

Páscoa era uma escrava paulistana que usava pedacinhos de unha, fios de cabelo e excrementos humanos para enfeitiçar e matar. Depois de fazer um pacto com o demônio, ela tornou-se uma espécie de serial killer do século XVIII, matando cinco pessoas.

Essa história fantástica consta dos autos da investigação sobre seus crimes, da qual a Justiça Eclesiástica de São Paulo se ocupou durante dez meses. Finalmente, em 30 de julho de 1750, o juiz assinou a sentença: o caso deveria ser encaminhado à Inquisição, em Portugal. O destino de Páscoa nas mãos do Santo Ofício, que costumava condenar bruxas à morte na fogueira, ainda é um mistério. Processos recém-redescobertos nos arquivos da arquidiocese mostram que entre 1749 e 1771 nove mulheres (Páscoa entre elas) e quatro homens foram acusados de feitiçaria em São Paulo.

Salvos de um incêndio e esquecidos por décadas dentro de um baú de metal, esses documentos inéditos revelam episódios sombrios e pouco estudados da História nacional: a caça às bruxas conduzida pela Igreja Católica há mais de 200 anos.

"Trata-se de uma descoberta revolucionária", diz a historiadora Mary Del Priore, professora de história do Brasil colonial na Universidade de São Paulo, USP. "Essa documentação serve para iluminar um território que ainda continua nas sombras."

Os treze processos por feitiçaria, manuscritos em delicada fibra de pano e carcomidos pelo tempo, mostram como as autoridades eclesiásticas brasileiras seguiam à risca a cartilha da Inquisição portuguesa. Do século XVI ao XVIII, o Tribunal do Santo Ofício puniu com severidade qualquer suspeita de desvio em relação à doutrina católica, incluindo aí a magia. Nunca chegou a se estabelecer na colônia brasileira e seus enviados especiais – os Visitadores – só estiveram nas capitanias prósperas como Bahia, Pernambuco e Grão-Pará.

Em São Paulo, na época um pobre aglomerado de sessenta ruas contornadas pelo Rio Tamanduateí e seu afluente, o Anhangabaú, a caça às bruxas ficou por conta do clero local. Num processo aberto em 1767, Isabel Pedrosa de Alvarenga, moradora de Santo Amaro, foi acusada por um dos espiões da Igreja (chamados de "familiares do Santo Ofício") de dispor de um saco de coisas abomináveis para exercer atividades diabólicas. Umbigos de crianças, bicos de pássaros, cabelos e panos ensopados em sangue eram o tesouro desta mulher que vivia de esmolas e jamais admitiu ser uma bruxa. As acusadas eram normalmente pobres coitadas como Isabel, mais preocupadas com o sustento do dia-a-dia do que em prejudicar alguém.

Eram parteiras, lavadeiras de mortos, benzedeiras, curandeiras e adivinhas – típicas profissões femininas da época. "O próprio saber feminino era visto como bruxaria", diz a historiadora Eliana Rea Goldschmidt, do Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina da Universidade de São Paulo. A primeira leitura dos documentos – de difícil compreensão devido ao português arcaico e à deterioração do papel – foi feita pela historiadora a pedido de VEJA.

As regras do Arcebispado da Bahia, editadas em 1707 numa tentativa pioneira de adequar as diretrizes católicas à colônia tropical, puniam os praticantes de magia com multas, excomunhão e degredo na África. A definição de magia era vaga e podia incluir qualquer acontecimento incomum. Em 1749, por exemplo, a Cúria paulista enviou a Portugal os autos de acusação contra Patrício Bicudo da Silva, colono de Santana de Parnaíba. O que tinha sido apurado contra ele era a estranheza de "trazer consigo cobras vivas nas mãos sem receber lesão alguma". Num processo arquivado na Cúria, de 1771, Leonor de Siqueira e Moraes e sua filha, Ana Francisca, foram acusadas de usar "líquido menstrual" para transformar Manoel José Barreto, marido de Ana, num "pateta".

O exílio no Brasil foi pena comum imposta às feiticeiras portuguesas. Isso encheu a colônia de benzedeiras e milagreiras. Apesar da quantidade de autos-de-fé em Lisboa, as cerimônias em que se queimavam hereges, a caça às bruxas foi mais branda em Portugal do que em outros países europeus, como a Alemanha. Todo o continente vivia assombrado por bruxarias.

A conclusão dos processos encontrados no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo pode estar nas montanhas de papel armazenadas na Torre do Tombo, que guarda os documentos coloniais em Lisboa. Ou em lugar nenhum. Se Páscoa ou outras bruxas paulistas arderam nas fogueiras é, por enquanto, uma pergunta sem resposta.

As Bruxas de Curitiba...


Saudações castrexas!

Há 3 anos atrás fiz uma pesquisa na rede, e descobri um texto interessantíssimo sobre Bruxas paranaenses, especialmente da capital Curitiba, em sua maioria descendentes de europeus, cujas práticas mágicas são sobrevivências genuínas da Feitiçaria Medieval européia. O texto é de Johnni Langer, autor de "Feitiçaria em Curitiba: discurso e cotidiano, 1889-1945", que deixo a seguir na íntegra:

BRUXARIA E SATANISMO NO ESTADO DO PARANÁ
Por Johnni Langer

Existem poucos trabalhos sobre história da bruxaria em nosso país, sendo os mais importantes os de Laura de Mello e Souza, Luíz Mott e Carlos Roberto Nogueira. No sul do Brasil praticamente não existem estudos, apesar de inúmeras tradições de cultos mágicos por parte da população. Apresentamos alguns elementos de uma pesquisa desenvolvida por nós em 1991 na capital paranaense.

As praticantes de feitiçaria - denominação genérica para vários tipos de atividades mágico/religiosas - recebiam várias designações pela sociedade curitibana: Megera, Górgona, Sibila, Mandraqueira, denotando ao mesmo tempo repulsa e mau gênio. Típicas do estereótipo da bruxa, elaborado durante a Europa Medieval. Mas seriam estas supostas mulheres realmente bruxas ou praticantes de magia? Ou foram criações do imaginário? Segundo nossas investigações, baseadas em depoimentos policiais, noticiários jornalísticos e outros documentos, essas misteriosas mulheres foram perpetuadoras de uma tradição secular advinda do Velho Mundo.

A mais antiga referência que encontramos é de 1889, de uma senhora chamada Ana Formiga que residia na rua Benjamin Lins. Era famosa por suas supostas ligações com o demônio. Após um incidente com um cabo do exército, ela teria colocado um feitiço na porta da casa deste. Alguns dias depois, a esposa do cabo adoeceu. Segundo um jornal local "ao abrir os batentes da janela de sua casa, encontrou entre estas e a vidraça uma rã seca, que tinha presa às pernas uma rosa branca e na boca uma cruz formada pela justaposição de dois pauzinhos. A um canto da janela foi encontrado um bilhete escrito com tinta roxa".

Outros casos interessantes foram das "bruxas" Lucinda e Deolinda. A primeira teve em 1899 sua casa investigada pela polícia. Além de diversos apetrechos de magia, foi encontrado um dedo humano seco.
Em 1919, na casa de Maria Jesuína de Carvalho, foram apreendidas "latas com terra de cemitério, ossos de animal, sapos secos, cabeças de alhos cortadas em cruz, sal grosso torrado, sola de sapato de defunto". Ambas as apreensões foram largamente comentadas pela imprensa. Essas três personagens (todas descendentes de etnias européias) acabaram por desaparecer dos jornais alguns dias depois.
Mas nenhum caso de bruxaria ficou mais famoso na mídia curitibana quanto o incidente ocorrido na rua Visconde de Guarapuava em 1934. A esposa de um importante juiz, D. Nair Ribeiro, teria sido enfeitiçada pela bruxa Tiburcia e "começou a vomitar despachos contendo panos, cabelos, fumos, couro de sapos e outros ingredientes de magia negra". A polícia, acompanhada de médicos e repórteres compareceu ao local. Quando ela novamente começou a vomitar, foi retirada uma "bola" com os seguintes componentes: "maços de cabelos atados, contas de colar, bilhetes amarrados". Por vários dias, os jornais noticiaram o encontro de sapos e gatos pretos encontrados na frente da casa de dona Nair, ambos vivos com os olhos e bocas costurados! Após alguns meses, Nair acabou falecendo e a notícia também desapareceu aos poucos dos jornais. Hoje em dia, "coincidentemente" no mesmo local onde existia a sua casa, foi construído o Instituto Médico Legal de Curitiba, e alguns metros dali funciona a Câmara Municipal, onde dizem muitos funcionários, os casos de assombração são muito frequentes durante a noite...

Durante a Idade Moderna, a figura da bruxa era sempre associada à mulheres sozinhas e velhas. Essa herança cultural veio para o sul do Brasil com os portugueses, e posteriormente com os imigrantes. Um dos aspectos frequentes do estereótipo da bruxa é a idéia da pobreza. A bruxa é pobre, do mesmo modo que o mendingo. Em 1900, uma mulher morena e velha tinha por hábito andar esmolando pelo centro de Curitiba com uma bandeja. Seria uma mendiga qualquer se não fosse o fato dela procurar as donas de casa para promover rezas de curas.
É o suficiente para ela transformar-se em uma bruxa, aos olhos da sociedade de então.

Outro aspecto do estereótipo é o referente a anti-sociabilidade das bruxas. Elas acarretariam uma série de conflitos e hostilizações com a comunidade de sua época.
No bairro curitibano de Umbará, em 1906, um benzedor de 85 anos teve sua casa atacada por colonos italianos, tendo sido espancado e suas vestes atiradas ao fogo. Posteriormente, uma senhora com 100 anos foi pelos mesmos colonos considerada uma bruxa, e para não ser morta mudou-se com a família para o centro da cidade. As bruxas são personagens sociais que permanecem toleradas durante algum tempo, sendo em determinada ocasião responsabilizadas pela grande maioria dos problemas vigentes na ocasião. Na Europa esse fenômeno era muito comum: "os processos da inquisição revelam uma acumulação de queixas aldeãs clássicas (...) revelam tensões internas dos camponeses" (Laura de Mello e Souza).

Segundo pesquisa de História oral que efetuamos no mesmo bairro de Umbará (1991), as crenças na feitiçaria são ainda muito comuns. Para grande parte dos moradores existe uma família de Umbará que perpetua tradições de bruxaria européia desde o Oitocentos: a avó ou mãe transmite os conhecimentos secretos para a filha. Em determinadas épocas do ano, principalmente em 22 de dezembro, as bruxas se reuniriam coletivamente para realizar um Sabbat em volta do lago Azul, em uma área afastada do bairro. Infelizmente não conseguimos evidências concretas desse suposto fato.

A bruxaria coletiva ou satanismo no estado do Paraná já havia sido documentada durante o século XIX, segundo o pesquisador de ocultismo e grão-mestre maçônico Dario Vellozo (ver ref.). Uma seita teria sido formada em 1870 por Manoel Antonio e reunia muitos membros, possuindo uma hierarquia complexa, práticas de profecias, simbolismos e cultos de magia negra advindas da Europa. As atividades desse grupo também eram conhecidas fora do Paraná, como comprovamos com o jornalista João do Rio em 1904: ao entrevistar líderes luciferistas na então capital brasileira, reporta-se aos praticantes paranaenses "que estão dans le train dos processos de crença na Europa".

Atualmente também temos notícias da existência de seitas satanistas no Paraná, inclusive com práticas de sacrifícios humanos (ver ref. Genésio Pontóglio e jornais).

A mais recente das veiculadas pela mídia foi a LUS, Lineamento Universal Superior, seita comandada pelo psicólogo argentino José Baamonde e a brasileira Valentina de Andrade. Em 1992 foram apreendidos na rodoviária de Londrina diversos trajes ritualísticos (pelas fotografias, percebemos que são do estilo tradicional inglês), apetrechos, armas, livros, fitas cassetes e vídeos, todos pertencentes ao LUS. Essa seita foi envolvida com o assassinato em um ritual do menino Evandro Caetano, desaparecido em 6 de abril de 1992 na cidade paranaense de Guaratuba.

Em todo o Brasil são encontrados restos humanos misturados a evidências de rituais das mais variadas tradições mágicas, dos ritos afro-brasileiros à herança européia. Muitas vezes o ceticismo "apaga" completamente os registros, impossibilitando os pesquisadores de definirem com maior precisão a realidade da imaginação. E alguns seguidores de inocentes práticas mágico-religiosas (como a moderna Wicca) são algumas vezes responsabilizados erroneamente por atos macabros que com certeza existem pelo país. As bruxas e o satanismo ocorrem há muito tempo no Brasil, mas nem sempre constituem a mesma coisa. Mas resta ao leitor decidir o que pensar.

REFERÊNCIAS:

LANGER, Johni. Feitiçaria em Curitiba: discurso e cotidiano, 1889-1945. Monografia de Bacharelado em História pela UFPR. Curitiba, 1992, 122 p. Disponível para consulta na Biblioteca Pública do Paraná (Rua Cândido Lopes n. 133, Curitiba);

RIO, João do. Satanismo. In: As religiões do Rio (1904). Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1976;

SOUZA, Laura de Mello e. O diabo e a terra de Santa Cruz. São Paulo: Cia das Letras, 1986;

VELLOZO, Dario. Ocultismo no Paraná. In: Esfinge, Curitiba, vol. 2, n. 11, 1900.

Texto retirado do site:

www.sobrenatural.org

domingo, 25 de maio de 2008

O Entrudo - A Tradição em Trás-os-Montes


"Ainda resistem em Portugal algumas celebrações do Entrudo que mantêm a sua singularidade, de acordo com as nossas tradições. Em Trás-os-Montes contam-se pelo menos três: Lazarim, Vinhais e Podence.

Em Lazarim, o Entrudo é uma festa local, quase privada, cuidadosamente preparada nas semanas que a antecedem. O ponto alto é a leitura pública das «deixadas», testamentos que dividem simbolicamente um burro pelos rapazes e raparigas da aldeia. Jocosas, trocistas e irónicas, são preparadas em segredo pelos mais novos, que muitas vezes recorrem à sabedoria e conhecimento dos mais velhos, repetindo a tradição. Os testamentos são ouvidos em silêncio pelos mascarados para não serem reconhecidos pelas vítimas das suas diabruras.

Mas a festa não fica completa sem o Desfile de Caretos, o Concurso de Máscaras (feitas em madeira pelos artesãos locais) e a Queima dos Compadres - o compadre e a comadre, dois bonifrates carregados de pólvora e que, na terça-feira, põem ponto final à festa e à rivalidade que durante várias semanas opôs rapazes e raparigas.

Fundamentais são também as refeições cerimoniais à base de carne de porco, que marcam o início do período de abstinência da Quaresma.

Se o discurso jocoso e a troça pública marcam o momento mais significativo do ritual carnavalesco de Lazarim, em Vinhais e Podence é o movimento e a acção endiabrada dos mascarados que predomina.

A acção dos diabos de Vinhais já não produz hoje os efeitos temidos de outrora, quando as raparigas não se atreviam a sair à rua. O ritual de punição e correrias pelas ruas da vila é hoje uma manifestação tímida e cada vez mais incerta, com não mais do que uma dezena de mascarados.

Mas, em Podence, pequena aldeia situada a poucos quilometros de Macedo de Cavaleiros, a tradição está de boa saúde e conserva ainda uma boa parte da licenciosidade «selvagem» que sempre a caracterizou.

Os dias grandes da festa são o Domingo Gordo e Terça-feira de Carnaval e os Caretos só param para matar a sede ou para combinarem mais uma investida sobre o Largo da Capela, a pequena praça da aldeia onde todos assistem ao ritual.

Às iras dos Caretos endiabrados ninguém se atreve a opôr-se. Apenas as Matrafonas (raparigas disfarçadas de homens e vice-versa) são poupadas à sumária justiça carnavalesca, assaz singular no caso da aldeia transmontana: os demónios mascarados lançam-se ao assalto das moças e encostando-se a elas, ensaiam uma dança um tanto erótica, agitando a cintura e fazendo embater os chocalhos que trazem pendurados contra as ancas das vítimas.

Na investida bárbara que faz ecoar por toda a aldeia o alarido dos chocalhos e o tropel surdos dos passos, os Caretos levam tudo pela frente, indistintamente. Por detrás da máscara de latão os olhos procuram muitas vezes as moças mais apetecidas, quer sejam da terra ou de fora, para o sacrifício. Não conhecem entraves ou proibições: subir às varandas, trepar aos telhados ou correr pelo Largo da Capela. Tudo vale para «chocalhar» e misturar o tilintar dos chocalhos com os risos das raparigas.

Na Terça-feira Gorda, a aldeia mergulhará novamente numa vertigem de correrias e travessuras que só terminarão com o cair da noite e com o cansaço dos demónios de fatos de franjas de cores vivas."

Texto colhido do site:

www.attambur.com/Recolhas/entrudo.htm

A Lenda do Vinho do Dão....


Saudados sejam ó castrexos!

O vinho é dos elementos mais fortes presentes nos ritos da Tradição. A mera degustação do vinho é um ritual em si mesmo: um culto ao Prazer que nos proporciona Baco....

E é evocando Baco com Evoés de satisfação e alegria que conto aqui a lenda da origem do Vinho do Dão, em Portugal:

"Um dia, há muitos e muitos anos, fez Baco uma visita ao seu amigo Endovélico, o Deus da Lusitânia. Atravessou as serras e subiu penosamente ladeiras até chegar a terras banhadas pelas águas do rio Dão. Quando chegou a uma tosca cabana de pedra e troncos, onde vivia um casal lusitano com um filhinho, gritou:

"Pelos Deuses dai-me de beber!"

O lusitano entrou na cabana e regressou com uma escudela de barro cozida ao Sol, cheia de água.

"Água? Por acaso não tendes vinho?"

O lusitano arregalou os olhos, coçou a barba e voltou-se espantado:

"Não! Nós não sabemos o que isso é. Quereis vós comer?"

E sem esperar resposta, voltou com uma perna de cabrito montanhês.
À despedida, Baco, que estava comovido pela franca hospitalidade do luso, disse-lhe:

"Ainda um dia hás-de saber o que é vinho!"

Alguns anos mais tarde, os legionários vieram à casa do luso, e cada um deles abriu uma vala e plantou uma videira. Quando partiram, colocaram uma tabuleta nos bacelos, onde se podia ler: "Baco oferece reconhecido".
Aquelas cepas foram crescendo.......Até que mais tarde deram saborosos bagos, cujo suco o lusitano espremeu para beber no Inverno, numa comunhão de força e rejuvenescimento...

E assim, daquelas uvas que eram uma delícia do bom Baco, havia nascido o grandioso e salutar Vinho do Dão."

Bênçãos embriagantes de Baco!

EVOÉ!!!

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Atégina


"Ave Ataegina Domina Nostra, Benedicta Est..."
- Devotio de Atégina.

No último dia 20 de Março, Equinócio de Outono, celebrei mais uma vez os ritos que aprendi com aqueles que trilharam o caminho antes de mim. Entre estes ritos, está a representação da descida de Atégina ao Submundo.

Segundo a Tradição nos conta, Atégina desce ao Submundo, em busca de Seu Amado Endovélico, que havia sido morto por um grande javali ( que simboliza as Forças de Destruição, que desfazem a forma para que a essência possa renascer ). Atégina desce e se encontra com Seu Amado, agora Senhor do Mundo dos Mortos: Enobólico, o Muito Negro. Ela, que é a Força que a tudo vivifica, ao mergulhar nas trevas da Morte, abandona o Mundo dos vivos à escuridão e ao fenecimento de tudo o que antes era verde e florido....é necessário mergulhar nas escuras profundezas para se encontrar o Amor verdadeiro, que é a Vida em seu ápice de realização e razão de ser.

Ritualizo a Descida de Atégina no Equinócio de Outono guardando o ícone Dela ( que fica sobre o altar doméstico nos meses claros do ano ) dentro do sacrário, junto com a imagem de Endovélico ( que é ali guardada na véspera, quando ritualizo a morte e descida do Deus ao Submundo, pela força do Javali Negro ).

Os ícones dos Deuses ficam guardados no sacrário durante os meses escuros e só são retirados seis meses depois, no Equinócio de Primavera: a Festa do Desabrochar da Vida!

Sempre que Atégina desce, confio à Deusa e Senhora Nossa as sementes de meus sonhos....Pois Atégina é, então, a própria Semente: que em busca de florescer novamente em Amor e Beleza, junto a Seu Amado, se enterra no Ventre Sepulcral da Terra Mãe. A semente, debaixo da terra, será roçada pelas Forças de Destruição do Submundo, que farão a casca da semente se putrefazer....nesse processo, ela passará por dor e medo, numa verdadeira alquimia, no Caldeirão de terra, vermes e umidade do Ventre da Velha Dana....e deste caos germinal, surgirá o broto verde...que se elevará, em busca do Sol: Endovélico ( o que floresce ), que aí sim, terá voltado a brilhar sobre a superfície....o broto crescerá, recebendo os beijos cálidos de Endovélico.....o botão logo se mostrará por entre as folhagens....e eis que, no Tempo certo, florescerá......e a Deusa, assim, retornará aos Seus filhos.....a Renascida.....a Flor plena de Vida, Alegria, Beleza e Amor.... Atégina!

E junto com a Deusa, florescerão os sonhos que este filho devoto lhe confiou....e que junto com Ela, festejará a realização de cada um deles.....assim como também aprenderá com Ela sobre a não realização daqueles que não vingarem....pois Atégina é Senhora da Terra, da Lua e do Submundo....Deusa Tripla que reina sobre todos os Mundos, e que conhece o que vai nas profundezas subterrâneas de nosso inconsciente....no íntimo de nossa alma....e Sabedora disso, concederá sempre os frutos apropriados para a nossa colheita.....

"Na Ara da Vida jaz uma Morte
A ti te lanço a minha sorte
Ataegina tríade fatal
Pálida Deusa, doce é teu mal.

Centenas de corvos sobre a rochedo
Cantam em coro histórias de Medo
De Primaveras que a morte abraça
Em ti encontram a sua desgraça.

Devotio Ver Sacrum
Devotio Consecratio
Capitis Amore Dirae
Rainha da Noite, Rainha Natura
Saudoso berço primaveril.

Já se choram filhos perdidos
Para terras amargas sem retorno
Onde a voz dos Deuses Perdidos
Bebe o povo o sangue do corno

Corças alvas trazem esperanca
Lembram destinos, a vitória,
Nobre Guerra, furiosa dança
Do pó sai um rumor de glória.

Devotio Ver Sacrum
Devotio Consecratio
Capitis Amore Dirae
Rainha da Noite, Rainha Natura
Saudoso berco primaveril..."

- Moonspell

Bênçãos da Semente Sagrada!

Por: Raven Luques McMorrigú.

Vassoura atrás da porta....


Bruxas e Vassouras são praticamente sinônimos...inseparáveis no imaginário popular e folclore, desde a Idade Média, quando tal artefacto passou a fazer parte dos ritos das Bruxas.
A vassoura, assim como qualquer outro objeto utilizado corriqueiramente, acabava sempre integrando o Ofício Bruxo...
Muitos costumes foram associados à vassoura, mas talvez o mais popular seja aquele para se espantar visitas indesejáveis: colocar a vassoura atrás da porta!

Sobre tal costume, vejo três fundamentos:

a) Pelo facto da Vassoura ter sido a forma de se camuflar a Estaca dos Bruxos ( Cajado bifurcado que representa o Chifrudo, mais comum entre Bruxos Tradicionais, principalmente os Britânicos ), ela pode ser colocada atrás da porta, como uma forma de se invocar a presença do Mestre do Sabá ( O Chifrudo ), conjurando-O para proteger aquela casa, aquela família, aquele clã. Notem que, pelo facto da bifurcação ser escondida entre as cerdas da vassoura, ela estando de ponta cabeça está servindo, na verdade, para invocar justamente o supracitado conceito;

b) Pelo facto da Vassoura ser um instrumento de limpeza, a adoção dela nos rituais da Arte fez com que fosse também utilizada para limpeza do ambiente: inclusive nos aspectos psíquicos, energéticos, espirituais e emocionais. Sendo também instrumento de limpeza energética, e portanto de banimento daquilo que não desejamos, ela estaria ali, atrás da porta, para lembrar da função dela...e eis que as más energias e/ou a presença da visita inoportuna serão através de tal gesto, banidos;

c) E também pelo facto desse instrumento simbolizar a união do Masculino Sagrado ( o cabo ) com o Feminino Sagrado ( as cerdas ). Nessa perspectiva, a Vassoura conjura na porta ( local sagrado dentro das tradições antigas, morada de Espíritos Guardiães, de Ancestrais ) as forças vivificantes: A União Sexual dos Deuses conjurando o crescimento da Vida, em oposição às forças de destruição da pessoa indesejada ( geralmente alguém invejoso e daninho à família ), e cuja presença levaria ao fenecimento e à Morte. É o mesmo princípio da Figa: o gesto representa a União Sexual, a Força crescente da Vida, em oposição à inveja, que faz secar e fenecer rebanhos, plantações, relacionamentos amorosos, ardores apaixonados alheios, projetos profissionais, trabalhos, e até mesmo impede as coisas de crescerem: seja um bolo no forno, seja um feto no útero...

Que os Lares de nossas portas espaventem nossos inimigos com poderosas vassouradas!

Besos!

Por: Raven Luques McMorrigú.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Trebaruna


Saudações castrexas!
Lembro-me da primeira vez em que ouvi Seu nome sendo invocado em um rito...por mais que me esforce, não consigo calcular o tempo que fiquei imerso nas profundezas...mergulhado nas águas do Rio da Memória, que me fazia, naquele instante, resgatar mais uma parte de minha Ancestralidade....vi outras terras, outras épocas....cultos e devoções d'outrora, feitos por mulheres e homens, que fervorosamente pronunciavam Seu nome....Trebaruna!

Trata-se de uma Divindade das mais populares, pelo que arqueólogos puderam comprovar em escavações. É uma Deidade lusitana que recebeu cultos também dos romanos, como provam inscrições em aras votivas, que inclusive A chamavam de "Augusta", título evocativo de grandeza, reservado às Divindades mais altas do Panteão latino....o que demonstra a importância de Seu culto.

Trebaruna era associada à proteção doméstica, da casa em si. Poderia ser associada a Vesta, mas Sua atuação vai além: também rege a Guerra, a morte em batalha ( forma gloriosa de se morrer, a mais respeitável e desejável para um ibérico antigo ). Era, portanto, uma Deidade associada à honra.

As tradições de Bruxaria Ibérica advém principalmente dos antigos Cultos Domésticos, tendo sobrevivido, com o passar dos séculos, como Bruxaria Hereditária. Como vimos no texto sobre Altares, o templo do Culto Doméstico é a Casa: local onde os Ancestrais do Clã ( entre estes, os Deuses que teriam originado aquela linhagem ) recebem cultos, dentro de rituais praticados apenas pelos membros iniciados da Família. Trebaruna, portanto, é das Deusas mais veneradas em tais ritos, junto a Trebopala ( protetora das plantações, celeiros e dos animais domésticos ), Arentius e Arentia ( casal de Deuses protetores do povo e da terra ), Bandonga ( Deusa protetora dos laços de honra e de sangue que unem o Clã ), entre outros...

Segundo Leite de Vasconcelos, autor de "Religiões da Lusitânia", o significado do nome dessa Divindade seria "Segredo da Casa" ( do celta "Trebo = casa; "Run = segredo, mistério" ). Trebaruna é a Força que guarda e protege a união da estirpe....

Em casa, a imagem de Trebaruna está sobre o altar doméstico e também no larário da porta de entrada: desde nossos mais remotos ancestrais, nos protegendo e abençoando...

"Trebaruna, Filha da Dor
Guerreira Sagrada, Deusa do Amor
Trebaruna, Teu leito semente
Acolhe-nos agora num mui doce abraço
Trebaruna, és Vida és Morte
da Lua és Filha, dos Lobos Consorte
Trebaruna, Pagão é Teu ventre
Ansiado refúgio de quem ainda te sente
Viva!

Trebaruna és Tu quem nos gera
Alimento teu seio d'Amor e de Guerra
Trebaruna a Tua voz é
a melodia mais doce da nossa Terra
Trebaruna nós Tuas crianças
Beijamos Teus olhos cerrados com fervor
Trebaruna cantamos para Ti
Somos Teu eterno, fiel trovador!

Trebaruna - Moonspell.

Abraços!

Por: Raven Luques McMorrigú.

domingo, 18 de maio de 2008

Deuses Ibéricos


Buenas!

Em meus estudos sobre Paganismo e Bruxaria Ibéricos, colhi informações interessantíssimas sobre os Deuses venerados por nossos Ancestrais. Alguns destes Deuses permaneceram sendo cultuados com o passar dos séculos, outros tiveram Seus nomes caídos no esquecimento....

Vejo que cabe a nós honrarmos nossa memória Ancestral, reacender o Fogo Sagrado dos Altares dos Deuses Nossos......Que Seus Nomes sejam honrados e Benditos sempre!

DEUSES IBÉRICOS E CELTIBÉRICOS

AERNO – Senhor dos Ventos do Norte, Deus protetor do povo Zoela. Uma bela inscrição foi encontrada em Torre Velha, Babe, Castro de Avelãs, em honra a Aerno, que diz o seguinte: “DEO AERNO ORDO ZOELARUM EX VOTO” ( “A Ordem dos Zoelas ao Deus Aerno, em cumprimento de um voto” );

ÁRACO - Divindade regional mencionada em Alcabideche, Cascais, Lisboa;

ARENTIUS E ARENTIA – Par de Deidades protetoras do Povo, tendo eventualmente uma feição guerreira. São Divindades exclusivamente lusitanas;

ARES LUSITANO - Deus bélico que rege os cavalos;

ATÉGINA – Deusa Mãe dos lusitanos, rege a Terra, a Lua e o Submundo. É uma Deidade que recebe especiais homenagens nos Equinócios, onde é lembrada sua descida às profundezas ( por ocasião do Outono ), quando ia ao encontro de Seu Amado Endovélico, e seu ressurgimento, na Primavera. Seu nome provém do céltico “Ate” ( irlandês arcaico “Aith” ) e “gena”, que significa “Renascida”. É uma Deusa da fertilidade e dos frutos da terra, que renascem todos os anos, sendo portanto, ligada à Terra e ao Renascimento da Vida. A sede do culto a Atégina localizava-se na cidade de Turóbriga ( Betúria Céltica ), onde recebia a denominação de “Ataecina Turobrigensis Proserpina”. Era-Lhe prestado um culto de Devotio, que consistia em invocar a Divindade, através de certas fórmulas, inclusive em latim, para prejudicar alguém ( da simples praga até a morte ). Era, contudo, também, Deusa da Cura, como comprovam inúmeras inscrições. Recebia epítetos, conhecidos graças às inscrições das aras votivas, como “Dea Domina Sancta”. É representada pela Cabra e pelo Corvo, zoofanias principais de seu culto;

BANDUA – Seu nome deriva da raiz indo-européia “Bhend”, que significa “atar, ligar”. Isso demonstra que Bandua é uma Deidade dos laços, das ligações: dos laços mágicos, bem como dos laços que unem os homens, laços de honra e de sangue. Trata-se de uma Deidade da primeira função, mais no âmbito da Soberania do que no da Guerra, propriamente dita ( apesar de seu carácter guerreiro ser indiscutível, como atestam muitos de seus epítetos: “Bandua Aetobrigus” - O fogosamente forte - , “Bandua Cadogus” - O Guerreiro - , entre outros ). Bandua ou Band, é uma Divindade guerreira, da magia guerreira, vinculada a comunidades humanas, a confrarias de guerreiros, isto é, de grupos de guerreiros de elite, relativamente afastados do resto da comunidade, dedicados inteiramente à vida bélica, desprezando o dinheiro ( se se tiver em conta o episódio em que Viriato, Grande Líder da Resistência Lusitana contra a invasão romana, exprime o seu desprezo pelos bens do seu sogro Astolpas ). Bandua ( nome com variantes, entre as quais Bandonga e Band ) era adorado por Galaicos e Lusitanos;

BANDONGA – Deusa conhecida por uma inscrição que contém uma interessante referência a um indivíduo de nome “Celtius”, podendo aqui referir não tanto ao nome próprio mas mais a uma denominação étnica, isto é, “dos Celtas”. Alguns estudiosos dizem que isso se confirma pelo significado do prefixo Band, que segundo alguns, se refere a “ordenar” ou “proibir”, podendo também se referir a um prefixo feminino ( ainda hoje usado na Irlanda, como por exemplo em “Banshee” ). Seguindo outras teorias, como a que nos leva ao prefixo indo-europeu “Bhend” ( analisado anteriormente ), chegaremos a uma possível contraparte feminina de Band: uma Deusa tribal, protetora dos laços espirituais assim como dos laços de sangue, que unem a estirpe, nesta vida e além dela; Esse aspecto coloca Bandonga como uma Deusa de importância crucial para as Bruxas ibéricas, de Tradição Hereditária;

BELENOS – Deus celta do Fogo, adorado pelos lusitanos;

BODO - Divindade regional mencionada em Villapalos, Léon;

BOKON - Deus associado ao vinho. Herói mítico dos antigos celtibéricos;

BÔNCONCIOS – Deus Guerreiro lusitano;

BORMÂNICO – Deus das águas termais, equivalente a Esculápio. É portanto, um Deus da Saúde, adorado a norte do Douro. O seu nome significa “faço ferver”, isto é, a água que brota nas caldas. Alguns estudiosos interpretam Bormânico como uma Entidade de carácter iniciatório, já que na água tudo se dissolve, assim como todo passado simbolicamente é abolido, através da simbologia da morte no mergulho, e do renascimento no erguer-se das águas;

BRIGANTÉS – Deusa Guerreira ibérica, possivelmente associada à tribo celta dos Brigantes ( Calaicos ). Também chamada Brigantia, é associada a Brigit, assim como a Minerva ( segundo a Interpretatio Romana );

CANDÂMIO - Este teônimo foi registrado também como epíteto de Júpiter ( Jupiter Candamius ), o que indica esta Deidade como regente do raio e das tempestades;

CANDEBERÔNIO - Divindade regional mencionada em Vila Nova de Mares, Braga;

CARNEO - Divindade regional mencionada em Arraiolos, Évora, associado aos carneiros;

CARIOCECO – Deus lusitano da Guerra, equivalente a Marte ( Ares ). Segundo o antigo escritor Estrabão, "ofereciam um bode e os prisioneiros e cavalos"a essa Deidade. Ao norte do Tejo, é conhecido como Ares Lusitano. Na região da Galiza ( Tuy ), havia um culto local a Mars Cariociecus. O estudioso J. Leite de Vasconcelos, autor de “Religiões da Lusitânia”, expõe a hipótese do elemento “cario” provir do celta “corio”, que significa “corpo de tropas”;

CERNUNNOS – Deus celta associado à Morte e ao Renascimento, assim como às florestas e aos animais. Em uma cerâmica encontrada em Numância, é representado através de uma figura em pé e com os braços ao alto, sua cabeça aparece coroada com chifres ramificados de cervo. Data do século II a.e.c.. É um Deus associado com a fecundidade, e está relacionado ao Deus Cornífero de Val Camonica ( Itália ), e também com as Divindades representadas no Caldeirão de Gudenstrup ( Dinamarca );

COHUE (COHUENTENA) - Os estudiosos associam a deusa-tripla céltica Coventina ligada a fontes sagradas e curas;

COSUA – Deus da Guerra, venerado a norte e a sul do Douro ( portanto, comum a Calaicos e a Lusitanos ). Também conhecido como Cosus. Há uma inscrição dedicada a este Deus no sudoeste de França, indicando seu carácter marcial – “Cososvs Devs Mars”. Cosus seria o Deus que presidiria à assembléia dos guerreiros das tribos, tendo por isso uma função jurídica;

CROUGA – Deus ligado às rochas e eventualmente à morte. Na Irlanda, é Crom Cruaich, o Deus da Destruição, a quem eram sacrificados os primogênitos de cada Clã e cujo nome parece significar algo como “Cabeça Curva”; em galês, é Pen Crug, teônimo que estabelece ligação entre Crom Cruaich e Crouga Magareaicus. É uma Deidade comum a Lusitanos e Calaicos;

DANA – Deusa Mãe dos celtas, Senhora dos Tuatha de Danann, adorada pelas Bruxas celtibéricas como a Grande Mãe Terra;

DEGANTA - Deusa que rege os rios;

DENSO - Divindade regional mencionada em Felgar, Moncorvo;

DERCETIO - Deus das Montanhas;

DEVA - Deusa celtibérica dos rios;

DURBÉDICO – Deus cujo nome pode ser decomposto em “Durb” ( céltico “drucht” = orvalho ) + ed + icus, estes últimos sufixos comuns entre os celtas. Significaria assim “O Deus que goteja”, ou seja, um Deus ligado à água de fontes ou do rio Avus, que passa perto de Ronfe, onde a inscrição foi encontrada;

DRUSUNA - Deusa do Carvalho, protetora das florestas, padroeira da Sabedoria Druídica;

EBÚRIO - Deidade associada ao freixo e bosques em geral, também chamado Eburianos;

EDÓVIO - Divindade regional mencionada em Caldas de Reis, Pontevedra, também chamado Edouios;

ENDOVÉLICO – O mais conhecido dos Deuses Antigos da Lusitânia, semelhante ao Deus celta Sucellos. É uma Divindade de dupla manifestação, ora como Deus Subterrâneo, Senhor do Mundo dos mortos, cujo Santuário ficava em Rocha da Mina, ora como Deus Solar, adorado no Santuário do Outeiro de São Miguel da Mota, no Alandroal ( atribui-se, inclusive, a esse Deus, a característica de Deidade tópica do outeiro onde seu culto se realizava ). É um Deus associado à saúde, razão pela qual as pessoas peregrinavam até Seu Santuário, em Rocha da Mina, em busca de cura para seus males. Muitos estudiosos defendem a origem céltica de tal Deidade. Leite de Vasconcelos falou a respeito do nome céltico “Andevellicus”, comparando-o com nomes galeses e bretões, chegando ao significado de “O Deus Muito Bom”, curiosamente o mesmo epíteto do Deus irlandês Dagda. Os romanos, ao chegarem à península, absorveram o culto a Endovélico, como provam os vários ex-votos deixados por eles, com inscrições que atestam a Sua importância, como esta:
“DEO ENDOVELLICO, PRAESENTISSIMI AC PRAESTANTISSIMI NUMINIS” ( Deus Endovélico, Gênio aqui presente e muito prestativo ). É considerado, portanto, o Pai da raça Lusitana, Deus com características solares, assim como saturnianas ( isso nos remete a uma zoofania de importância primeira na heráldica lusitana: o Corvo, ave símbolo de Lisboa, que é regido pelo Sol e também por Saturno, associado aos mortos e ao Mundo do Além );

EPONA – Deusa céltica cujo culto na península é documentado em Sigüenza, numa figura que mostra essa Deidade sentada de frente e sobre um cavalo de perfil. É considerada uma Divindade protetora dos mortos. Possui atributos das Deusas Mães, como a Cornucópia ( Chifre da Abundância ). E por estar relacionada aos mortos, é vista como uma Mãe Psicopompa ( condutora dos mortos até o Mundo do Além ), já que o cavalo é tido como um condutor das almas. Epona é então, uma antropomorfização de tal conceito xamânico. Também está relacionada a Rigantona, a Amazona Céltica do Mabinogion;

ERBINA - Divindade feminina de natureza/atuação desconhecida;

ICCONA LOIMINNA: - Divindade a quem foi registrada um sacrifício de uma ovelha (apesar de alguns estudiosos traduzirem por égua) na inscrição lusitana de “Cabeço de Fráguas”, alguns estudiosos sugerem uma possível relação com a Deusa Epona;

ILURBEDA: - Divindade feminina de natureza/atuação desconhecida segundo as fontes pesquisadas;

LACIPAEA (LACIPEA) - Divindade feminina de natureza/atuação desconhecida segundo as fontes pesquisadas;

LAEBO – Deus cujo nome significaria “Torcido”, isto é, “Sinistro”, assim como os Deuses célticos da Magia bélica. Adorado exclusivamente na Lusitânia, tanto quanto se sabe. Em latim, é chamado Laebus;

LUG – Deus da Luz, cujo culto é documentado epigraficamente na inscrição de Peñalba de Villastar, datando do século I a.e.c. ( onde encontramos a única menção antiga da Festa de Lughnasadh ), assim como em outra inscrição em Uxama e mais uma, em Fuensabiñán, Guadalajara. Também encontram-se teônimos em área celtibérica como Luguadicus em Uxama, Luguateitubos, assim como em Lucobriga ( Daroca ), entre outros. Lug, ou Dis Pater é uma Divindade de carácter Solar, devido à raiz de seu nome, que significa “brilhar”, e dizia-se que Seu rosto era tão brilhante que nada nem ninguém poderia mirá-lo( muitos estudiosos acreditam que o brilho a que refere o mito de Lug é o do raio cortando o Céu, que inclusive é simbolizado por sua Lança; nesse aspecto, Lug também pode ser associado a Júpiter ou Zeus, Senhor do Céu e dos Raios. O corvo é mencionado como uma zoofania típica de Lug, o que nos remete a Endovélico e seu duplo carácter solar-saturniano, de que o corvo é símbolo totêmico maior na Península Ibérica. Muitas cidades antigas foram construídas em torno de Santuários dedicados a esse Deus: Lugo na Calaecia ( Galiza ), noroeste da Espanha, assim como em outras áreas da Europa, o que mostra a universalidade de Seu culto : Lugdunum ( atual Lyon ), Laon e Loudun, na França; Londinium ( atual Londres ), na Inglaterra; Lugarus, Lugano e Locarno, na Suíça; Luga e Luganskaya, na Rússia; Ludge, na Alemanha; Leidem, na Holanda; Luggude, na Suécia; Lugoj, na Romênia; Lugo, na Itália; e Lugos, na Áustria;

MATRUBOS – As Matrubos ou Matres( Mães ) são representações tríplices da Deusa Mãe, Senhora da Terra e Doadora dos frutos, assim como de toda a abundância ( são representadas portando a Cornucópia e cestos repletos de frutos ). Muito comuns no Mundo Céltico, Seu culto era praticado também na Ibéria, em Agreda;

MORRIGÚ – Deusa de primeira importância, cujo culto é comum a todas as tribos célticas. Sua zoofania principal é o corvo. É a Deusa da Guerra, Aquela que leva os guerreiros ao furor da batalha, invocada em vinganças e maldições contra os inimigos. Também é uma Deusa dos mortos, do Outro Mundo, invocada pelas Bruxas antigas para proteger o Clã. Seu nome vem do celta “Mor” e “righín”, ou seja, “Grande Rainha”, ou “Soberania”. Há evidências arqueológicas do culto a Morrigú desde a Era do Cobre, nas regiões da Espanha, da França, de Portugal, da Inglaterra e da Irlanda, onde inúmeras esculturas de uma mulher com uma cabeça de corvo, gralha ou falcão foram encontradas. Era conhecida por vários nomes, entre eles “Morrighan”, “Morgan”, “Morgana” e “Cathubodua”. Possui também um aspecto triplo, através do qual é conhecida como “As Três Morrigú”, ou “As Fúrias da Batalha”. Em tal representação, Morrigú se manifesta nas três Irmãs Negras: “Badb”, a Donzela, é o Corvo de Batalha, que sobrevoa o campo de batalha, cantando a morte dos guerreiros, e os leva ao Renascimento, através do Caldeirão da Imortalidade. Era representada em estandartes de guerra, onde a cabeça negra do corvo sobre um fundo vermelho-sangue estava presente, lembrando aos inimigos que em breve o sangue deles seria vertido ao chão, e suas carcaças seriam bicadas até os ossos, pelos corvos; “Macha”, a Égua-Mãe, é uma Deusa que protege a Sua prole ( isso originou a crença de que a Deusa daria a vitória àquele que se unisse a Ela sexualmente. Foi assim que Ela deu a vitória a Lug na batalha contra os Fomorians. Tal crença era comum a todas as tribos célticas, assim como também entre os celtíberos ); e “Nemhain”, a Fúria, a Anciã Negra que anunciava a morte dos guerreiros. Era chamada de “Lavadeira do Vau”, uma Velha sombria que lava as roupas manchadas de sangue no vau dos rios. O guerreiro que visse tal aparição antes de uma batalha, sabia que sua hora tinha chegado;

MUNIS – Deidade dos rios, também conhecida como “Munidia”. Seu culto é atestado nas localidades de Três Marias e Idanha-a-Velha ( Portugal ) e em Cáceres ( Espanha );

NABIA – Deusa ligada às águas dos rios ( seu nome significa “água corrente” ). Os rios, no mundo céltico, são vistos como passagens para o Mundo do Além. Nabia tem também uma função guerreira e de orientação da comunidade, o que reforça o seu papel de padroeira do contacto com o Outro Mundo, já que a guerra é uma porta para a vida pós-morte. Nabia era venerada por Calaicos e Lusitanos;

NANTOSVELTA – É uma Deusa gaulesa, também adorada pelos ibéricos. Deidade da Natureza, Esposa de Sucellos;

NEITOS– Deus da Guerra de cuja figura emanam raios, significando porventura o fulgor do seu furor guerreiro. EM latim, é chamado Netus. Parece haver uma ligação entre esta Deidade e o simbolismo da mão. Netus foi venerado em território da Lusitânia e da Celtibéria ( onde é conhecido como Neton ou Neitin ) bem como na Irlanda ( onde é Net, Neit ou Nuadu, o do Braço/Mão de Prata );

NEMEDUS - Deus protetor dos bosques, associado a círculos de pedras e de árvores ( Nemetons );

REVA – Divindade associada à Soberania e também à guerra. Comum a Lusitanos e Calaicos;

RUNESOCÉSIO – Deus Guerreiro e mágico dos Celtas do Alentejo ( Portugal ), referido como “Runesus Cesius”, sendo a segunda partícula do nome um epíteto. Atribuem-lhe origem céltica, significando “O Misterioso”, do irlandês arcaico “Run”, ou seja, “Mistério”, e/ou “armado de dardo”, que seria o seu epíteto segundo um mote celta. Chegamos então ao significado de Runesocesius: “O Deus dos Dardos” ou “O Misterioso armado de Dardo;

SUCELLOS – Deus gaulês da agricultura, das florestas e das bebidas alcóolicas, como nos atestam representações desse Deus carregando um barril de cerveja ( suspenso numa estaca ) e um martelo de Deus. É também venerado pelos ibéricos;

TANIT – Deusa de origem fenícia, incorporada pelos ibéricos, a partir de seus contactos com fenícios e cartagineses. Era venerada como Grande Deusa em Cartago, donde seu culto chegou a Espanha, e se instaurou na Ilha de Ibiza e em outras regiões da península, como Cartagonova ( a atual Cartagena ). Era venerada junto ao Deus Merkal-Baal;

TONGOENABIAGO – Deus Fertilizador e das fontes dos juramentos ( o seu nome significa “Deus da fonte que se jura” ). Na cidade de Braga, a norte do Douro, existe uma fonte dedicada a esse Deus, onde se faziam promessas e juramentos. Aqueles que juravam, diriam algo parecido a esta sentença em irlandês arcaico: “Tong a toing mo tuath” ( “Juro o que jura o meu povo” ). Tal juramento era feito por Tongoenabiago, junto da fonte de sua invocação;

TREBARUNA – Deusa cujo nome significa, segundo Leite de Vasconcelos, “Segredo da Casa” ( do celta “Trebo” = Casa, Lar, e “Rune” = Segredo, Mistério ). Trebaruna seria assim o Espírito do Lar, uma Deusa Doméstica, passando depois para a sua função mais conhecida de Deusa Guerreira, da batalha e da morte em batalha. Não vemos, no entanto, a necessidade de qualquer transfomação da parte da Deusa, no sentido de uma evolução de Guardiã do Lar para Deusa da Guerra: as duas funções podem perfeitamente coexistir o tempo todo na mesma mesma Divindade. Isto faz com que seja considerada uma versão lusitana das Deusas célticas da Guerra e da Magia: Morrigú, ou Morrighan, Macha e Badb Catha. Trata-se de uma Divindade adorada pelos lusitanos, assim como também pelos romanos invasores com um profundo respeito, como atestam as várias inscrições em aras votivas encontradas pela península, como esta em Cáceres, datada de entre os séculos I e II d.e.c. ( depois da era comum ): “A AUGUSTA TREBARUNA Marcus Fidius Macer filho de Fidius e inscrito na tribo Quirina magistrado III vezes duúnviro II vezes intendente das construções”.O que chama a atenção é o epíteto “AUGUSTA”, particularmente evocativo de grandeza. O lobo é uma zoofania própria de Trebaruna;

TREBOPALA - Deusa protetora das plantações, dos celeiros e dos animais domésticos;

TURIACO – Divindade dos Gróvios ( povo do Entre-o-Douro-e-Minho ), cujo nome pode ser decomposto em “Turius” + “acus”, o que nos remete a uma inscrição irlandesa ( Tor í rí no tighearna ). É um Deus de Poder, pois “Tor” significa “Rei” ou “Senhor”;

VAELICO - Deus Lobo que rege as iniciações de guerreiros;

Fontes pesquisadas:

Site da Tradição Ibérica de Portugal:

http://caldeiraodabruxa.homestead.com/Panteao.html

Forum Lealdade Sacra ( Portugal ):

http://s2.excoboard.com/exco/forum.php?forumid=64650


Texto sobre Religiões da Lusitânia do blog de Morgana Le Fay:

://morganalefay.br.tripod.com/morganalefay/id11.html


Site Parayba Pagã, do amigo Marcílio Diniz:

http://parahybapagan.wordpress.com/2008/04/05/deuses-luso-galaicos-nocoes-basicas/

Site HISPANIA DEORVM:
http://groups.msn.com/HISPANIADEORVM/hispaniadeorvm1.msnw


Bênçãos dos Deuses do Castro!
Abraços!

Por: Raven Luques McMorrigú.

Altares Domésticos....

Salud!

Desde nossos mais remotos Ancestrais, há a noção da importância não só física, como também mágico-psíquica do Fogo....seja a Fogueira, a Lareira, o Altar, o Fogão....ao redor do Fogo, Vida e Morte falaram de suas múltiplas facetas.......ao redor do Fogo, as Artes de preparar alimentos, remédios, artes e artesanatos, metalurgia e escultura se desenvolveram.....assim como também as Artes de criar cantos e contos que alimentam e curam a mente e o espírito.....

Com o passar dos séculos, o Fogo Doméstico, eixo axial do Clã, foi cada vez mais envolto em simbolismos e conceitos que remetem ao Sagrado. Tornou-se, entre os Ibéricos antigos, o Altar dos Ancestrais: o ponto focal simbólico da Espiritualidade Tradicional de nossos Ancestrais, e local onde a Tradição era repassada às novas gerações...



As Tradições de Bruxaria Ibérica guardam em sua essência a espiritualidade Pagã de outras épocas....seja de forma clara e óbvia, seja de forma cifrada e/ou inconsciente. Em sua grande maioria, as linhagens de Bruxaria Ibérica são advindas dos Cultos Domésticos praticados pelos Pagãos na Antiguidade e início da Idade Média. Seu Templo Sagrado, era e é a Casa.



As famílias que mantiveram a Tradição no correr dos séculos ( e indivíduos solitários, pois a tradição ibérica também foi - e muitas vezes ainda é - mantida solitariamente, por uma infinidade de motivos, geralmente originários das violentas e criminosas perseguições religiosas ocorridas no passado ) sempre encararam a casa muito mais do que uma manifestação arquitetônica. Eles vêem na casa um solo sagrado, onde Vida e Morte transitam, onde ocorre a partida dos entes queridos, que vão morar no Castro dos Idos ( a Aldeia dos Ancestrais )...... e também onde ocorre o nascimento de outros queridos, que segundo nossas crenças, são Ancestrais que viveram há muito tempo, retornando aos ventres de nossa linhagem, para continuar seu aprendizado e vivência entre nós, fortalecendo os laços que nos unem, em nome de Band e Bandonga, Deuses dos laços sagrados de honra e de sangue...Num universo como esse, não poderiam faltar, claro, os altares.....os locais consagrados ao culto e veneração aos Deuses e Ancestrais do Clã...

Cada família, é de se esperar, tem suas características muito próprias, no que diz respeito a que Forças serão veneradas e invocadas nos Altares Domésticos. Com a romanização, na Antiguidade, o culto aos Ancestrais da Casa, já existente entre os ibéricos, ganhou determinados aspectos do Culto aos Lares, que romanos e ibero-romanos mantinham em suas casas. Tais altares eram chamados de Lararium. Mas também, por outro lado, há famílias que não aceitaram a romanização tão facilmente, e permaneceram mantendo os traços originais de suas crenças e práticas. O mesmo ocorreu com a chegada do cristianismo.........e com a necessidade de se camuflar cultos e práticas de devoção pagãs, vários dos simbolismos, imagens e mitos do catolicismo foram adotados por muitos dos antepassados. Com isso, tradições sincréticas surgiram ( o mesmo fenômeno ocorrido com os africanos e afro-descendentes no Brasil, na época em que eram escravizados, no que diz respeito aos seus cultos voltados aos Orixás, e ao sincretismo com elementos iconográficos católicos ). Por conta disso, a veneração a determinados santos da igreja foi incorporada por Bruxas e Bruxos portugueses e espanhóis. Através do culto a esses santos, se manteve, muitas vezes, o culto aos Deuses Antigos, no que os antepassados viam em tais ícones uma forma de se representar aquelas mesmas Forças Ancestrais adoradas no passado, e cujo verdadeiro nome só era conhecido e pronunciado entre os iniciados da Família. Hoje em dia, muitas vezes encontramos pagãos e Bruxos que torcem o nariz para tal culto sincrético....e sempre venho a lembrá-los que é esta a cultura de magia que muitas vezes herdamos daqueles que trilharam o Caminho antes de nós....e que graças a eles e a seus cultos sincréticos, estamos hoje aqui VIVOS e confortavelmente sentados diante do monitor, mergulhando em nossas pesquisas sobre nossa Ancestralidade Pagã.......

E se no altar de casa, eu aqui no início do século XXI, lembro de representar os Deuses venerados pelos Ancestrais dos tempos em que o Paganismo era a cultura religiosa comum, acho que não há nada mais coerente com os princípios da honra ao sangue, do que me lembrar TAMBÉM dos Antepassados que fizeram suas releituras da Tradição, com o intuito de se preservá-la, para as gerações futuras.....assim como também me lembrar daqueles antepassados que simplesmente aprenderam que o santo protetor da família era São Miguel Arcanjo....e a Ele rendiam devotio ( devoção ), sem nem suspeitarem que tal personagem foi visto, pelos seus bisavós, como uma camuflagem para Endovélico, Deus protetor da raça lusitana e ibérica..........Pessoalmente, procuro manter em minhas devoções pessoais, espaços para essas e outras tantas concepções do Sagrado......e por isso, quem conviver comigo, verá que há lugar em minha jornada diária para uma oferenda de incensos e vela para Endovélico no altar dos Deuses.....uma vela e incensos acesos ao som de fados ou música flamenca ou árabe aos Ancestrais....assim como também há espaço para se invocar São Miguel Arcanjo, no dia a dia, quando benzo alguém contra o mau-olhado: “Valei-me a Luz da Espada de Fogo de São Miguel Arcanjo, que é a Luz da Honestidade de meu Trabalho, que queima, fura, corta, rasga e despedaça a língua, os olhos, o coração, o corpo, a mente, a alma e a má vontade de quem me quer mal, Assim Seja, Amém!”Eu sou fruto das inúmeras alquimias sanguíneas e culturais que me antecederam em meu Clã.....<;)

Falarei aqui sobre o Altar de minha Casa, local onde trabalho com o Culto Doméstico.

Meu altar hoje é menor do que antigamente, senti necessidade, com o tempo, de simplificar algumas coisas....mas não me mantenho rígido quanto a isso, e sempre estou aberto a mudanças no que diz respeito à organização do altar....seja partindo de idéias minhas, seja daquilo que é pedido pelos Ancestrais.....Estou com planos de construir um altar específico para os Ancestrais, já que hoje em dia eu os venero e cultuo no Altar dos Deuses.

Costumo representar a linhagem Ancestral das Bruxas que me antecederam com uma imagem de gesso de uma Bruxa Anciã, que estava presente no altar que montei em meu primeiro ritual de Bruxaria ( na verdade, o primeiro que fiz, agora consciente que o nome daquilo que eu vivia e praticava religiosamente se chamava “Bruxaria” ), em 31 de Outubro de 1994. Ela estava presente em minhas iniciações, e a tenho como representação daqueles que me guiam e protegem em meu caminhar no Caminho.... Nesse mesmo altar tem na parede um ícone de Arádia, com um véu azul na cabeça ( pelo visto, minha ancestralidade ibérica andou tirando umas férias na península vizinha.... <:p ).

Ladeando esse ícone, há ícones de Atégina e Endovélico, os Ancestrais do povo Lusitano. Tem também imagens de Morrigú ( O Corvo, ave símbolo Dessa Deusa celta e celtibérica, é como meus Ancestrais também chamavam a Mãe ), de Trebaruna ( Deusa Guerreira lusitana, cujo nome significa “Segredo da Casa” ). A propósito, essas imagens fui eu mesmo que desenhei e pintei........Acima, há uma representação de Ártemis Pótnia Theron ( Senhora dos Animais ), Deusa grega, venerada em quase todo o mediterrâneo, minha Mãe Divina adorada...Também há uma imagem do Chifrudo Robin Goodfellow, que é uma das representações do Deus das Bruxas que mais me toca fundo n’alma. Sobre o altar, há uma concha, que simboliza a Deusa, o Mar, Ventre primordial de toda a Vida; do outro lado, um chifre de carneiro, símbolo do Deus dos Animais, Senhor que morre pelo bem da tribo, e que sempre renasce........Há também um sino, daqueles que se pendura no pescoço das cabras ( lembrança do tempo em que meus antepassados marroquinos pastoreavam cabras, sendo este um som muito comum em seu dia-a-dia, na luta pela sobrevivência da tribo ), que toco quando termino de acender as velas e incensos, para sinalizar a dedicação das oferendas aos Deuses e Ancestrais.............Tem ali também um incensário, castiçais para velas, um recipiente de metal, para se socar ervas ( com um pilão ), que uso para colocar sal grosso.............

Minha Varinha Mágica está na beira do altar.........com ela eu direciono energias, encanto filtros mágicos, poções, feitiços.......Há também um cristal aos pés de uma imagem de Ártemis de Éfesos; um incensário em formato de corujinha, que uma amiga me trouxe da Argentina; um guizo japonês ( sim, meus rituais são globalizados e barulhentos....um LUXO....kkkkk ); um pentagrama que uso no pescoço; um Athame ( punhal ), com o formato de Triluna, que é um xodó meu.............também costumo guardar ali a Chave da Casa, símbolo do Culto Doméstico Ladeando a foto da imagem de Ártemis de Éfesos, há duas representações de animais: um boi que ganhei de meu avô quando tinha uns 5 anos............e uma pantera negra, um dos brinquedos preferidos de meu irmão, que muito cedo foi morar no Castro dos Idos............o equilíbrio entre os opostos, a Sabedoria dos velhos passos, a Força dos novos............ <;)

Do lado do altar, a Estaca, cajado bifurcado que representa o Chifrudo, na Bruxaria Tradicional. Em todo ritual, acendo uma vela na forquilha da Estaca, que também é enfeitada com as flores, folhas e frutos de cada estação, nos ritos sazonais.....Acima do altar, na parede, uma trompa de chifre de búfalo que eu fiz ( ainda não está pronta ), para soprar no ápice de cada rito; também tem uma maraca indígena que uma Bruxa maravilhosa chamada Anita La Fey me trouxe de Manaus ( besos mi querida! ); e além desses, tem o cajado dos Ancestrais e duas vassouras que utilizo em ritos específicos.

Com o tempo, percebi que a Sacralidade do Lar se manifesta em mais de um local da Casa: percebi o sagrado manifesto em cada cantinho donde eu moro!

A Alfaiataria de meu pai fica na frente de casa, porta pra rua, é o nosso comércio....onde ganhamos o Pão Sagrado de cada dia, com as Bênçãos e Graças dos Deuses e Ancestrais de nosso Clã...

Acima do relógio de Luz, estão imagens dos Santos venerados pelos meus pais e avós, mesclados com Deuses de nossos Ancestrais Pagãos, e até mesmo um Elefante de gesso ( presente de nossa querida hermana chilena Dona Isaura, fiel amiga de nossa família, que nunca nos deixa de fora das novidades da Avon! ), que está lá, conduzindo a Prosperidade para dentro de nosso Lar.

Quando meu pai subiu a Colina para a Aldeia D'Além D'Aló, mi madre colocou uma foto dele, num suporte, bem na cabeceira do balcão principal, onde grande parte do trabalho é feito: um novo Lararium, que inclusive conta com a presença do Fogo Sagrado, todo santo dia ardendo no Ferro de passar roupas, instrumento fundamental para o nosso sustento....Bendito Fogo Ancestral, ao redor do qual depositamos alimentos, poções medicinais, criações de nossas artes e artesanatos, canções, contos, esperanças e sonhos.....

Besos a todos!

Por: Raven Luques McMorrigú.

IBERIA AETERNA


Salud a todos!
Estou a cozer em fogo brando desde outras Luas a idéia de um blog voltado ao estudo, troca de idéias, conhecimentos e pesquisas sobre o Paganismo e mais especificamente a Bruxaria e Magia de Tradição Ibérica. Ou deveria dizer, Tradições? Sim, pois na Ibéria ( a Espanha e toda a sua multiplicidade étnica: castellanos, galegos, ástures, bascos, andaluzes, catalãos, assim como das terras que vão do Minho ao Algarve, que englobam nosso amado e Ancestral Portugal ), sempre existiram inúmeras tradições mágicas! Umas mais cristianizadas, devido ao processo histórico muito comum na Europa, desde a expansão da Igreja de Roma; e outras com costumes e crenças, mitos e ritos mais preservados em suas características Pagãs originais ( como entre os bascos, por exemplo ).
Este espaço, portanto, está aberto para a troca de informações sobre as culturas mágicas, folclore, Paganismo e Magia popular cristã ( assim como a sincretizada com as crenças Pagãs ) de Espanha e Portugal. Ao falar sobre tais tradições, inclusive sobre o que herdei de meus Ancestrais ibéricos e celtas, deixo aberto o convite para outros peregrinos aqui também exporem suas impressões e experiências sobre a Magia advinda das raízes de nossa amada IBERIA AETERNA!

Bendiciones del Cuervo y del Aker!

Por: Raven Luques McMorrigú.