domingo, 6 de dezembro de 2009

A Queimada: Feitiço e Magia das Bruxas Galegas



Slania tei!

A Galiza é uma região repleta de tradições milenares, localizada a noroeste da Península Ibérica. As primeiras ondas de imigração céltica chegaram no local há 3000 anos, e desde então, fincaram fundas raízes nesta terra. É de Galiza que partem os celtas brigantes, liderados pelo Rei Breogán ( lembrado até hoje no Hino Nacional Galego ) rumo às ilhas avistadas ao norte, desde a Torre de Brigantia ( atual Coruña ). É a conquista de Irlanda, lembrada no Léabhar Gaballa Érinn.
Sendo assim, a alma castrexa, própria dos galegos, possui a marca dos Ancestrais Druidas, das Meigas ( Bruxas Galegas, cujo nome vem do vocábulo "Maga" ), dos Velhos Deuses, da Magia dos Antigos...E é dessa Magia Ancestral, herdada geração após geração, que nos vem a tradição da Queimada.


Segundo estudos na área, a tradição da Queimada remonta a práticas rituais das Candelárias ( Inbolc ), associadas ao culto a Bríghida ( Brígit ), Senhora do Fogo, dos Ofícios e da Medicina, A Grande Alquimista. É muito popular o uso da queimada como um remédio dado às mães para beberem quarenta dias após o parto, afim de que não se resfriem nem sofram de males outros. É um costume, pelo que observei, presente nas famílias de várias regiões do Brasil. Minhas antepassadas espanholas também se serviam de tal prática. Também me foi relatada tal prática mágica em Famílias de amigos meus, tanto de portugueses quanto de descendentes de italianos. Há uma lenda que diz que Santa Brígida ( a cristianização da Deusa Bríghida ) teria sido a Parteira da Virgem Maria.....como as parteiras geralmente são as conhecedoras dos remédios próprios para as parturientes, me chamou a atenção um detalhe: a Festa de Santa Brígida ( Inbolc, Festa de Bríghida ) ocorre no hemisfério norte, em 2 de Fevereiro...exactamente quarenta dias após o Natal.....

Há inúmeras variações da queimada, tendo cada família ( ou cada pessoa ) uma receita particular....mas o processo básico é o mesmo:

Ingredientes:

Um litro de cachaça;

Duas xícaras de açúcar;

Grãos de café ( 8 ou 9 ), substituíveis por cravos-da-índia;

Uma colher de sopa de casca de limão e/ou de laranja ( o limão é lunar e a laranja é solar...isso dá margem para múltiplas interpretações.....vai de cada um.... );

Algumas ervas e especiarias, como louro em pó, canela em pó, gengibre em pedacinhos, alecrim, arruda ( 1 galhinho só ) ou artemísia.

ATENÇÃO: Mulheres grávidas ou amamentando devem evitar a queimada, principalmente as primeiras, pois algumas ervas, associadas com bebida alcoólica, cambiam em abortivos perigosos.

Modo de fazer:

Numa panela de pedra ou barro, coloque açúcar e leve ao fogo, pra esquentar um pouco. Coloque todos os demais ingredientes ( menos a cachaça ). Ao acrescentar os grãos de café ( ou cravos-da-índia ), coloque um em nome de cada cidade santa dos antigos galegos, donde vem a tradição da Queimada: um por Mondoñedo, um por Betanzos, outro por Tuy, um por Coruña, por Ourense mais um, outro por Lugo e o derradeiro por Compostela. Pode-se colocar mais um pela tua cidade natal e, caso esteja fora dela, um a mais, em nome da cidade onde estiver. Depois de acrescidos todos os elementos, apague o fogo. Espere uns 15 minutos. Coloque a cachaça na panela e um pouco no cucharón ( é como mi madre o chama, mas comumente é chamado no Brasil "concha", que se usa pra pegar feijão na panela ) junto com um pouquinho de açúcar. Acenda o fogo no cucharón ( se estiver na casa de outra pessoa, é o dono(a) da casa que tem de acender, pois é dele as chaves da casa, que representam quem mantém os Lares ali ). Leve o cucharón em chamas à panela, acendendo a poção ( acende-se o fogo dentro da panela ). Mexa então a poção, dizendo o Conxuro ( Conjuro ) da Queimada em galego:

CONXURO DA QUEIMADA
( Em Galego )

Mouchos, curuxas, sapos e bruxas.
Demos, trasgos e diaños,
espíritos das neboadas veigas.
Corvos, píntegas e meigas:
feitizos das menciñeiras.
Podres cañotas furadas,
fogar dos vermes e alimañas.
Lume das Santas Compañas,
mal de ollo, negros meigallos,
cheiro dos mortos, tronos e raios.
Ouveo do can, pregón da morte;
fuciño do sátiro e pé do coello.
Pecadora lingua da mala muller
casada cun home vello.
Averno de Satán e Belcebú,
lume dos cadáveres ardentes,
corpos mutilados dos indecentes,
peidos dos infernais cus,
muxido da mar embravecida.
Barriga inútil da muller solteira,
falar dos gatos que andan á xaneira,
guedella porca da cabra mal parida.
Con este fol levantarei
as chamas deste lume
que asemella ao do Inferno,
e fuxirán as bruxas
a cabalo das súas vasoiras,
índose bañar na praia
das areas gordas.
¡Oíde, oíde! os ruxidos
que dan as que non poden
deixar de queimarse no augardente
quedando así purificadas.
E cando este beberaxe
baixe polas nosas gorxas,
quedaremos libres dos males
da nosa alma e de todo embruxamento.
Forzas do ar, terra, mar e lume,
a vós fago esta chamada:
se é verdade que tendes máis poder
que a humana xente,
eiquí e agora, facede que os espíritos
dos amigos que están fóra,
participen con nós desta Queimada.

CONJURO DA QUEIMADA
( Em Português )

Mochos, corujas, sapos e bruxas.
Demônios, trasgos e diabos,
espíritos dos enevoados campos,
Corvos, salamandras e Bruxas:
feitiços das curandeiras,
Podres tocos de árvores furados,
lar dos vermes e bestas
Fogo das Santas Companhas,
mau-olhado, negros feitiços,
cheiro dos mortos, trovões e raios.
Uivar do cão, pregão da morte;
focinho do sátiro e pé do coelho.
Pecadora língua da má mulher
casada com um homem velho.
Averno de Satã e Belzebu,
fogo dos cadáveres ardentes,
corpos mutilados dos indecentes,
peidos dos infernais cus,
mugido do mar embravecido.
Barriga inútil da mulher solteira,
falar dos gatos que andam no cio,
cabeleira porca da cabra mal parida.
Com este fole levantarei
as chamas deste fogo
que se assemelha ao do Inferno,
e fugirão as bruxas
a cavalo, montadas em suas vassouras,
indo-se banhar na praia
das areias gordas.
Ouvi, ouvi! os rugidos
que dão as que não podem
deixar de se queimar na aguardente
ficando assim purificadas.
E quando este beberagem
baixe pelas nossas goelas,
ficaremos livres dos males
da nossa alma e de feitiço tudo.
Forças do ar, terra, mar e fogo,
a vós faço esta chamada:
se é verdade que tendes mais poder
que a humanas pessoas,
aqui e agora, fazei que os espíritos
dos amigos que estão fora,
participem conosco desta Queimada!

Ainda na confecção, fica um detalhe: na hora em que o fogo arder em meio ao conxuro, todos os presentes devem se concentrar em queimar e banir aquilo que não mais se quer em suas vidas. Se a quantidade de pessoas permitir, há um antigo costume do norte de Portugal, que ensina que todos os presentes devem mexer um pouco a Queimada, concentrando-se nas chamas para que queimem os males todos de suas Vidas....

Depois de conjurar a Queimada, tapa-se a panela ( ou deixa-se queimar até apagar ). Antes de beber, cada um fará seus pedidos, daquilo que querem atrair para suas vidas. Fazer a Queimada, por si, é um ritual de purificação da casa, que fica impregnada pelo perfume das ervas e especiarias.....e beber a Queimada é, por si, um ritual de purificação do corpo e da alma.....na Festa de Bríghida, conjurar a Queimada é se conectar à essência da Deusa do Trabalho ( que nos provê dos frutos e das ervas presentes na Poção ), da Cura ( propiciada pela Queimada ) e da Poesia ( presente no Conxuro )......é uma celebração de Alegria, Beleza e Magia!


Dedico este artigo a minhas Ancestrais españolas e todos os meus antepassados, que legaram essa Tradição...
A Nilce, Foster e a todos os mais irmãos meus, de sangue e de alma, companheiros de Queimada, com quem conjurei, conjuro e conjurarei...
A Marcílio Diniz, o querido Bardo de Ypuarana, cuja inspiração é Abençoada...
E a minha querida Iony Ming, Madrinha desse artigo, pois foi a que me impulsionou a escrevê-lo há um tempão...muchas gracias cariño! ^^


Bendiciones com a Luz das Candelárias de Bríghida!


Matubuta tei

/|\

sábado, 30 de maio de 2009

Religando em Celtibérico: Rituais falados no idioma dos Ancestrais....



Slania!
Tenho aprendido muito com o amigo Marcílio Diniz, principalmente no grupo Reconsceltica, do Yahoo, que ele criou, e em nossas conversas, sobre o idioma dos antigos celtibéricos. Como sempre digo pro povo em nosso círculo: inúmeras são as Iniciações pelas quais passamos em nossa jornada....e aprender Keltiberika tem sido uma jornada iniciática única. Para quem como este que vos tecla, que se encanta com tudo aquilo que possa nos aproximar ainda mais da Sabedoria dos Ancestrais, poder cantar a Eles, aos Deuses de nossa gente, no idioma em que também cantavam, tem sido uma experiência abençoada, sagrada....

Depois de ter utilizado alguns dos hinos, invocações e cânticos que o Marcílio, nosso querido Bardo de Ypuarana, compôs, confesso que fiquei tentado, e me arrisquei a escrever algumas coisinhas também.....rsrs....sempre, CLARO, me reportando a ele, para que me ajude a elucidar onde estou a escorregar na gramática, entre outros...

O saldo disso até agora foram alguns cânticos curtos, espécies de mantras, que tenho utilizado nos ritos do culto doméstico, e no dia-a-dia, com muito êxito. Deixo alguns abaixo:

A todos os Deuses do Povo:

Olloi deiuoi deiuaskue
ansonas geneis
nos anesonti
uta klansonti!

"Que Todos os Deuses assim como as Deusas
De nossa Gente
Nos protejam
E nos iluminem!"

A Candeberônio, Deus da Luz e do Saber:

Io Kandeberonios
ueizom nos zizeti
ekue nertom boudimkue (ou 'boudiamkue').
Io Kandeberonios
nos klanseti
uta ansonam trebiam aneseti!

"Que Candeberônio
Nos dê Sabedoria
Assim como Força e Vitória
Que Candeberônio
Nos ilumine
E proteja a Nossa Casa!"

Cântico a Cabar ( Kabaros ), Deus Bode Lusitano, Senhor da Sabedoria e das Bruxas:

Io Kabaros britui me zizeti
ekue kailom ueizomkue
uta skota klanseti!

"Que Kabaros me dê o Dom de Encantar
Assim como o Presságio e a Sabedoria
E ilumine as trevas!

Cântico a Crouga Magareaigo, Deus ibérico lusitano da destruição e da Magia:

Io Krouga Magareaikos,
ansonas toutas deiuos,
ansonus namatus damnati!
Io Krouga Magareaikos
danum britui zizeti (dê o dom para encantar)
ekue kailom boudimkue!

Que Crouga Magareaigo
Deus de Nossa Tribo
Prenda/amarre nossos inimigos!
Que Crouga Magareaigo
Nos dê o Dom de Encantar
Assim como o Presságio e a Vitória!

Cântico para Badb ( Badimas ) Deusa da Guerra, Senhora dos Corvos de Batalha:

Ia Katubodua Rigania Badiba
nertom ekue latum boudimkue
nos zizeti
uta ansonas trebias aneseti!

>"Que Badimas Rainha dos Corvos de Batalha
Nos dê Força assim como Vigor e Vitória
E proteja Nossa Casa!"

Cântico a Coventina, Deusa Lusitana da Cura e da Saúde:

Ia Kouenteina akuas deiua
iakas nos zizeti
ekue nos iskanti!

"Que Coventina Deusa das Águas
Nos dê Cura
E nos lave/purifique!"

Em breve postarei mais alguns cânticos no idioma de nossos Ancestrais de Celtibéria.

Ios Deiuum Deiuaumkue nos kalantiseti! ( Que os Deuses assim como as Deusas nos iluminem! ).

Raven Luques McMorrigú.