domingo, 24 de março de 2013

Bruxaria Tradicional Brasileira: A Arte Mágica das Benzedeiras, as Portadoras e Doadoras da Bênção

Sempre leio pelas searas virtuais que versam sobre os temas Bruxaria e Paganismo (ou Neopaganismo, enfim) sobre diferenças entre a considerada “Religião da Bruxaria” (que por sua vez é algo a nomear desde vertentes que se apresentam como “Tradicionais e pré-wiccanas”, e que se identificam como uma religião, à Wicca propriamente dita, uma das vertentes de Bruxaria moderna, criada por Gerald Gardner há 70 anos) e aquilo que alguns nomeiam de “Feitiçaria Popular” ou “Magia Popular”. Wicca possui um corpus muito próprio de crenças e práticas, embora beba de várias fontes (dentre as quais, Bruxaria Tradicional). Bruxaria Tradicional engloba várias vertentes mágico-religiosas em várias culturas, antropologicamente falando. E Feitiçaria Popular nada mais é do que a Arte Mágica das Bruxas, preservada em um de seus bastiões mais notórios: é também na Magia Popular, portanto, que a Tradição Bruxa buscou se preservar, em cifras culturais das mais variadas. Hoje eu li um texto sobre Benzedeiras, sobre as Bruxas Tradicionais Brasileiras, que com seu Dom, seu Encanto, sua Magia e seu Amor perpetuam o Saber de nossos Ancestrais Bruxos e Bruxas de outras épocas e terras, lá atrás em nossas raízes do Velho Mundo... ... e o texto me levou a três momentos vividos por mim, redespertados pelas Águas de Mnemosyne, a Memória Ancestral... nos três momentos, estava presente ao meu lado Dona Benedita, minha Avó: no primeiro momento, eu tinha 2 meses de idade, e estava acometido de sarampo, além de ter tido antes catapora. Fiquei internado um bom tempo no hospital até, quase morri. Até que minha mãe me levou até a Casa da Vó... onde havia a Coeva dela, local de rituais mágicos, onde imagens de santos vestidos com mantos feitos por ela, se assentavam num altar ao lado de ervas, chicote, punhal e chifres de carneiro... minha Vó me tomou nos braços e pintou todo o meu pescoço com urucum... e ficou conjurando e murmurando rezas e encantamentos, comigo nos braços, lutando com a Ceifeira, que queria me levar... Vó Ditinha foi mais Forte! Passou-se o tempo, e veio o segundo momento: as pérfidas artimanhas de olhares que secam a força e a vitalidade das criaturas vivas me acometia, drenando minhas energias... eu tinha 5 anos de idade, e estava com quebranto... Vó Ditinha nos recebeu, minha mãe e eu, em sua Coeva... onde ela preparava no seu caldeirão de ferro preto uma Poção Mágica, à base de hortelã e raspas de chifre de carneiro, impregnando a água que borbulhava... sobre a mesa (cercaaaaaaadaaaaa de primos, meu irmão, minha mãe e eu), Vó Ditinha colocou um prato, sobre o qual traçou a Encruzilhada dos Espíritos: a cruz com pólvora... o negro pó que, despertado pela chama, se transforma em uma nuvem na qual espíritos são conjurados... a Vó trouxe um tição aceso do Fogão a lenha e com ele conjurou os espíritos, bem ao centro da negra encruzilhada, traçada sobre o branco círculo mágico de porcelana sobre a mesa... e veio a explosão, que obrigou os espíritos vampirizadores a serem conjurados na fumaça e, com ela, banidos... imediatamente, a Vó despejou a Poção que chegava do Caldeirão, devidamente pronta, sobre o prato onde o conjuro tinha sido feito... e a poção dali resultante, foi vertida numa caneca para eu beber... e o menino aqui, perplexo com tal espetáculo fugiu... kkkkkk.... achando que ao beber a poção explodiria junto, olha a viagem do guri! kkkkk mas, a Vó, Feiticeira e VÓ, com sua autoridade inquestionável me encurralou no arraial e me deu a poção pra beber... e a Cura, mais uma vez, se fazia por seu Dom, Amor e Sabedoria... Passaram-se muitos, muuuitos anos, até que viesse o terceiro momento, desperto do sono da Memória: Vó Benedita estava em seu último leito nesta Terra... lutava bravamente, mesmo estando paralisada por um derrame, e sofrendo as dores da diabete... estava em sua Casa, recebendo alimentação por sonda, sem se mexer, sem falar... nós estranhávamos o fato dela ainda não ter feito a passagem, e estar sofrendo tanto nesse Mundo ainda, sem poder descansar de tamanhas agruras... minha intuição me impeliu a ir visitá-la... não me enganei... era NECESSÁRIO que eu estivesse ali, mais uma vez, diante desta que, mais que qualquer outra, reconhecia e reconheço como VERDADEIRA Sacerdotisa, pois servia a todos que batiam a sua porta, mães de todos os lares em busca de cura a seus filhos, mulheres desesperadas pelos dramas da maternidade... seja a que era desejada ou não... Dona Benedita SIM era uma Bruxa Mestra, pois além de deter a Ciência e a Arte, detinha o Dom... e era justamente esse Dom que pesava naquele momento, e a impedia de partir... já foi dito que nossa condição de Bruxos é antes uma Maldição, um Fado, um Destino... e que é nossa Missão haurir, extrair de tal Maldição as Bênçãos mais variadas... e, quando chega o momento fatídico de transpassar o Véu Entre os Mundos, esse Dom não pode permanecer conosco: deve ser repassado a um herdeiro! Me aproximei da cama da Vó... conversei com ela... palavras de carinho de um neto a sua Vó, buscando confortá-la de alguma maneira... foi quando, depois de um mês paralisada e sem falar, Vó Ditinha reuniu o que tinha e o que não tinha de Forças e pegou em minha mão... não consigo esquecer a Força com que ela a segurava... assim como a Força que ela moveu, para me dizer as Palavras... o Encantamento... Antes pedi licença a minha mãe e a minha tia... ficamos só eu e minha Vó, perante o Portal de Nossos Ancestrais... e Dona Benedita, Bruxa, Feiticeira, Sacerdotisa dos Antigos (pouco importando se eram venerados pela vestimenta cristianizada de imagens que serviam de suporte sincretizado), Mulher Sábia e Poderosa, me iniciava... não na linhagem materna ibérica, cujos caminhos eu já trilhava.... mas na linhagem dela, cujas raízes se estendiam pelo Vale do Paraíba (São Paulo), Minas Gerais, Bahia... e, cruzando os mares, até as terras Beirãs, no Coração da Lusitânia... Vó Ditinha me disse as Palavras... e com seu toque, me passou a Condição... o Fado... o Destino... o seu Dom... em seguida, voltou a se deitar, paralisada... muda... pois descansava de sua Missão finalmente cumprida... e, naquela mesma semana, ela partia em Paz... em seu funeral, através dos ritos de nossa Arte, fui até onde ela estava, no Entre Mundos... ela remava mansa e tranquilamente o Barco de Nábia, nossa Mãe, cruzando Suas Benditas Águas... e do outro lado do Rio, ela começava sua jornada... Peregrina a subir pelas encostas da Colina Eterna, onde se assenta, lá no alto, a Aldeia de Nossos Ancestrais... ... mas Bruxa que é Bruxa, cruza tais caminhos quando bem quer... e já há relatos contados em nosso Clã de situações em que o Espírito de Vó Ditinha surgiu para alterar os rumos dos acontecimentos, de forma a ajudar e defender Seus Filhos... Beijo minha Vó, desse teu neto que, nesta Terra, segue trabalhando o Nosso Ofício...

5 comentários:

Thiago disse...

Nooossa! Parabéns pelo texto, foi realmente emocionante! Na minha família existiam benzedeiras( pelo que minha avó me contou, a avó dela arrancava dentes segurando um punhal e recitando rezas,até um momento que ela lançava o punhal no chão, ficando em pé,e assim o dente caia!), mas infelizmente não me ensinaram pois não conheci nenhuma!

Ps: Adoro seus blogs!

Thiago disse...

Nooossa! Parabéns pelo texto, foi realmente emocionante! Na minha família existiam benzedeiras( pelo que minha avó me contou, a avó dela arrancava dentes segurando um punhal e recitando rezas,até um momento que ela lançava o punhal no chão, ficando em pé,e assim o dente caia!), mas infelizmente não me ensinaram pois não conheci nenhum(a)!

Ps: Adoro seus blogs!

Unknown disse...

Adorei o texto;mas alguém conhece um bezendeiro que esta ativo pois num passado bem longe já curam um febre q ñ passava com nda e atualmente passo por algo semelhante.Será que alguém tem uma benzedeira ativa para me endicar?

Unknown disse...

sabem de algum bezendeira ativa em sjc

Josiane Rocha disse...

Belo texto.